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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

A liberdade de não precisar ser nada além de mim

Esses dias me perguntaram se eu sou mesmo essa pessoa que parece ver a vida sempre pelo lado bom. A engraçada. A leve. A que está sempre com um sorriso pronto. E a verdade é que eu não sei. Nunca fui a mais engraçada da turma. Nunca fui a mais bonita da roda. Talvez eu tenha sido apenas uma das mais esforçadas. Daquelas que aprendem a se adaptar, que seguem em frente mesmo quando ninguém percebe o quanto estão cansadas. Porque eu também tenho meus dias de silêncio. Dias em qu

O Tempo Passou. Você Não

É engraçado como a vida segue. Ela segue tão rápido que, às vezes, faz a gente acreditar que deixou certas histórias para trás. Os anos passam, as cidades mudam, os rostos mudam, os sonhos mudam. A gente aprende a trabalhar mais, a sofrer diferente, a esconder melhor o que sente. E então, quando menos espera, uma lembrança encontra uma fresta e volta. E quando volta, não pede licença. Basta uma voz. Um olhar. Uma fotografia. Uma conversa qualquer. De repente, dez anos desapar

A Vida Acontece no Meio da Partida

As noites de Belém têm seus próprios humores. Tem noite que nasce escura, como se o céu tivesse guardado os seus segredos em algum lugar entre as mangueiras e os rios. Tem noite que abre espaço para as estrelas, e a gente quase acredita que consegue contá-las uma a uma. E tem aquelas em que a lua aparece sem pedir licença, atravessando as nuvens como quem chega atrasada, mas faz questão de ser notada. Talvez ela faça isso para lembrar que nem toda claridade precisa ser perman

A Gente Não Vive Mais os Dias, Só Repete

Tem dias em que eu acordo e não sei exatamente se é segunda, quinta ou domingo. E talvez isso seja o mais assustador de tudo. Porque os dias perderam personalidade. As segundas já não pesam mais como antes. As sextas não têm mais gosto de liberdade. E os sábados… os sábados parecem apenas uma pausa curta para continuar cansado depois. A impressão que eu tenho é que a vida entrou num ciclo silencioso de repetição. Como se alguém tivesse apertado o botão do automático e esqueci

Do Alto do Elevado, a Cidade Sangra

Do alto do elevado, a cidade nunca dorme. Ela pulsa. Grita. Sangra em silêncio. Tem noites em que eu vejo apenas faróis. Fileiras intermináveis de luzes vermelhas desenhando um caminho cansado sobre o asfalto molhado. Carros presos no trânsito como pessoas presas na própria vida. Cada buzina parece um pedido de socorro que ninguém escuta. Mas existem dias em que eu não vejo carros. Eu vejo pensamentos. Vejo alguém voltando para casa sem coragem de entrar. Vejo uma mulher limp

O Fim Não Anula o Amor

Tem términos que acabam antes da despedida. E existem despedidas que continuam vivendo dentro da gente por muito tempo, mesmo depois do fim. Outro dia eu ouvi uma música dessas que a gente já decorou sem perceber. Dessas que moram no fundo da memória e aparecem do nada, atravessando o dia sem pedir licença. E, em algum trecho, ela me levou até você. Não sei exatamente qual parte sua apareceu ali. Talvez nenhuma específica. Talvez tenha sido só a ausência inteira. É estranho c

Quarta-feira, 22h

Tem dias em que a gente chega em casa sem saber exatamente o que sente. Não sabe se pensa, se respira fundo, se responde as mensagens acumuladas, se resolve o problema que ficou ecoando o dia inteiro… ou se simplesmente senta e deixa o mundo continuar girando sozinho por alguns minutos. Porque durante o dia não existe tempo. Tempo pra sentir, pra entender, pra organizar a bagunça da cabeça. E talvez uma das melhores sensações da vida seja justamente essa: chegar em casa depoi

Quando até os lugares deixam de nos reconhecer...

Há dias em que a gente percebe, quase em silêncio, que os lugares não são mais os mesmos, ou talvez sejamos nós que deixamos de caber neles. Tudo começa com uma lembrança suave, quase bonita demais para ser verdadeira. Um lugar da infância, um desenho que parecia infinito, uma rua, uma casa, uma pessoa. Era tudo tão inteiro. Tão nosso. E, de repente, não é mais. Ou melhor: continua sendo, mas de um jeito que já não reconhece a nossa presença. O estranho disso não é apenas o d

Entre a correnteza e o silêncio: quando continuar já é um ato de sobrevivência

A gente cresce acreditando que a vida tem um roteiro claro, quase desenhado à mão, como se cada passo fosse nos levar inevitavelmente a algum lugar melhor, mais leve, mais certo. Quando somos crianças, o medo mais profundo quase sempre veste a mesma roupa: perder quem nos segura. A mãe, o pai, o chão. E a gente vai caminhando com esse medo silencioso dentro do bolso, fingindo que ele não pesa, enquanto o tempo vai passando e nos chamando para ser tudo aquilo que, um dia, diss

Não Existe Fórmula Pra Recomeçar

É curioso como a gente cresce acreditando que existe uma fórmula pra tudo. Uma fórmula pra esquecer o primeiro amor. Uma fórmula pra superar uma desilusão. Uma fórmula pra passar no vestibular, pra seguir em frente, pra “dar certo”. Como se a vida fosse uma equação simples -e bastasse aplicar o método certo. Mas não é. A verdade é que, no meio do caminho, a gente descobre que não existe fórmula nenhuma. O que existe é a vida acontecendo do jeito que dá… do jeito que a gente c

O Caminho Que Leva a Ela

As costas dela desenham ondas -suaves, contínuas -como aquelas que o mar forma quando ninguém está olhando. Vão de um lado ao outro com uma calma quase hipnótica, até se encontrarem no centro, criando um traço único, um caminho que desce sem pressa. E você acompanha. Dos ombros, pelas laterais, até onde o corpo encontra o chão e se completa. Há uma cor ali que não se explica, não se sabe se brilha, se aquece, se chama. Só se sente. E então o tempo muda. O ritmo vem de cima, d

Quando o Acaso Não Virou Nós- Parte 2

Não foi destino. Nem sorte. Nem aquelas coincidências bonitas que a gente gosta de contar como se o universo tivesse caprichado. Foi só um encontro. Daqueles que parecem prometer alguma coisa — um brilho rápido, um interesse que pulsa, uma sensação quase perigosa de que “poderia ser”. E eu acreditei. Acreditei como quem segura algo frágil demais, tentando transformar instante em permanência. Mas você nunca ficou. E não foi falta de acaso. Foi falta de escolha. Porque, no fim,

Entre o Acaso e a Escolha - Parte 1

Por acaso, eu encontrei você. Como quem desliza o dedo por uma tela sem esperar muito — só mais uma imagem, mais um rosto, mais um talvez — até que, de repente, algo prende. Algo fica. Algo atravessa. E ali, no meio do comum, você aconteceu. Te encontrei da forma mais casual que o universo poderia desenhar. Sem aviso, sem roteiro, sem preparação. E, ainda assim, tudo em mim reconheceu. Como se, no meio do acaso, houvesse um tipo raro de certeza — silenciosa, mas impossível de

Aos poucos, eu fui embora de mim...

A gente vai criando versões de si como quem troca de roupa para caber em lugares que nunca foram feitos pra gente. Um ajuste aqui, outro ali, um silêncio que engole uma opinião, uma vontade que fica pra depois — sempre depois. E assim, quase sem perceber, a gente começa a viver uma vida que não é exatamente nossa, mas que parece mais fácil de ser aceita. No começo, são concessões pequenas. Um hábito que some, um gosto que se adapta, uma rotina que deixa de ser prioridade. Aqu

Ohana

Eu olho pra ela e me pergunto se, por um acaso, ela pensa em mim do mesmo jeito que eu penso nela. Porque os olhos dela… ah, os olhos dela — são profundos como um amanhecer desses que a gente não sabe se vai ser sol ou chuva, como um inverno em Belém, imprevisível, íntimo, inteiro. Ela me olha como se lesse o que nem eu tive coragem de entender. Olhos cor de mel, que a luz clareia, mas nunca revela por completo. E foi nessa casa grande, entre paredes marcadas, bagunças esquec

Tem encontros que não obedecem relógio

A madrugada deixa de ser madrugada, o amanhã deixa de importar, e o mundo inteiro parece ficar em pausa (só pra caber aquele instante). Não é sobre estar acordado ou não. É sobre não querer sair dali. Existe uma linha invisível que a gente aprende a percorrer no outro. Não com pressa, não com roteiro. É quase como descobrir um mapa que nunca esteve à venda, só se revela pra quem presta atenção. E você presta. Nos detalhes. Nos silêncios. No jeito que o olhar segura mais do qu

Onde Mora o Que a Gente Sente

Tem dias em que tudo o que a gente quer é voltar pra casa. Mas não aquela casa de paredes, portas e janelas. É uma vontade silenciosa de voltar pra um lugar onde a gente caiba inteiro, sem precisar explicar nada. E tem fases em que o desejo é exatamente o oposto. Ir embora. Sair. Desaparecer um pouco do lugar onde o corpo está, porque a alma já não se reconhece ali. A gente cresce achando que casa é endereço. Rua, número, bairro. Mas a vida, com o tempo, vai desmontando essa

ADIAMENTO

A gente tem uma mania silenciosa, quase imperceptível, de acreditar que o amanhã é um lugar garantido. Como se estivesse ali, reservado, esperando por nós — intacto, paciente, disponível. “Amanhã eu falo.” “Amanhã eu faço.” “Amanhã eu tento de novo.” E assim, o hoje vai sendo empurrado com delicadeza para um canto qualquer da vida. A gente vive no automático. Acorda, responde, trabalha, resolve, volta. Repete. Como se o tempo fosse um contrato assinado, como se houvesse uma c

ECO (A)

Aos poucos, os espaços começaram a se expandir. O que antes cabia em mim, hoje parece escapar ao alcance da vista. Os ruídos diminuíram, mas o silêncio… o silêncio agora ecoa pela casa inteira. O corredor ficou mais longo. As paredes, mais distantes. Até a cafeteira — que antes era pequena demais para nós — hoje parece exagerada, como se dez xícaras fossem café demais para alguém só. Aliás, deixei de usá-la por alguns dias. Não sei se foi punição ou só cansaço. Talvez os dois

Superfaturada de Mim

A gota d’água que transborda o copo. O respiro preso pela pressa. O “não” que deveria ter escapado antes daquele “sim” desajeitado. Quem...

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