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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

Se Um Dia Você Pensar em Voltar, Escolha Não Voltar

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • 17 de jul.
  • 4 min de leitura

Se um dia você sentir vontade de voltar, eu só te peço uma coisa: não volte.


Parece contraditório, eu sei.


Porque quem ama costuma esperar. Costuma deixar uma fresta da porta aberta, uma luz acesa na varanda, um lugar reservado à mesa. Quem ama inventa desculpas para os atrasos, transforma saudade em esperança e faz do impossível um endereço onde insiste em morar.


Mas eu já fiz tudo isso.


E descobri que algumas portas precisam permanecer fechadas não por falta de amor, mas por excesso dele.


Então, se um dia a saudade resolver bater na sua porta, ofereça um café a ela. Converse um pouco. Espere a tempestade passar. Mas não atravesse a cidade para bater na minha.


Se, por impulso, seus dedos procurarem meu nome na agenda do telefone, pare antes da última tecla. Se o meu contato ainda estiver bloqueado, faça um favor para nós duas: finja que esqueceu como se desbloqueia alguém. Troque de aparelho, mude de número, invente qualquer desculpa. Só não me procure.


Existem silêncios que doem menos do que reencontros.


Se a curiosidade fizer você abrir minhas redes sociais para descobrir se cortei o cabelo, se envelheci, se encontrei outro amor, se ainda escrevo as mesmas crônicas ou se continuo sobrevivendo entre um café e outro, feche a tela.


Você não precisa saber.


E, talvez, eu também não precise saber que você quis saber.


Se, numa madrugada qualquer, depois de alguns copos a mais, você sentir aquela coragem irresponsável que só o álcool oferece e pensar em aparecer na porta da minha casa, permaneça onde estiver.


Peça outra cerveja.


Olhe o movimento da rua.


Converse com o garçom.


Espere o amanhecer apagar essa ideia.


Não transforme a embriaguez em passagem de volta.


Porque existem noites que parecem românticas apenas até o sol nascer.


Depois delas, sobra apenas o peso das palavras que nunca deveriam ter sido ditas.


Se um dia você passar perto daquele bar onde eu costumava estar e a curiosidade sussurrar que talvez eu ainda apareça por lá, siga andando.


Não entre.


Nem por acaso.


Nem só para ver.


Nem só para confirmar.


Algumas coincidências carregam o mesmo estrago de uma despedida mal resolvida.


E nós sabemos disso.


Não pense que esse pedido nasce da falta de amor.


Pelo contrário.


Ele nasce justamente porque eu ainda conheço o caminho que leva de você até mim.


E conheço, principalmente, o caminho que leva de mim de volta para você.


Esse sempre foi o problema.


Nunca tivemos dificuldade para nos reencontrar.


Nossa dificuldade sempre foi permanecer sem nos machucar.


Nós éramos especialistas em voltar.


Voltávamos depois das discussões.


Depois dos silêncios.


Depois dos orgulhos.


Depois das despedidas.


Voltávamos tantas vezes que começamos a confundir retorno com destino.


Mas voltar nunca significou ficar.


Era apenas o intervalo entre uma dor e outra.


Não importa o quanto remássemos, acabávamos sempre na mesma estação.


Pegávamos o mesmo trem apenas para desembarcar em plataformas diferentes.


Comprávamos passagens para futuros incompatíveis.


E insistíamos em chamar insistência de esperança.


Hoje eu entendo.


Nem todo amor nasce para durar.


Alguns nascem para transformar.


Existem pessoas que entram na nossa vida não para permanecer, mas para nos ensinar uma versão de nós mesmos que ainda não conhecíamos.


Você foi isso para mim.


Um capítulo.


Não o livro inteiro.


Foi uma casa onde morei por algum tempo, mas que já não existe da mesma maneira.


Foi um verso bonito que não precisava virar romance.


Se algum dia você escrever sobre nós — porque eu sei que você escreve melhor quando dói —, não me envie.


Não me conte.


Não deixe que eu descubra que, em algum momento, você também chorou por mim.


Não permita que eu saiba que meu nome ainda atravessa algum pensamento seu antes de dormir.


Guarde isso.


Existem sentimentos que sobrevivem melhor quando permanecem em silêncio.


Não porque deixaram de existir.


Mas porque aprenderam que existir não é motivo suficiente para voltar.


Durante muito tempo eu acreditei que amar alguém era encontrar um caminho de retorno.


Hoje acho que amar também é reconhecer quando esse caminho precisa desaparecer.


É aceitar que algumas histórias terminam antes de perderem a beleza.


É entender que insistir pode destruir aquilo que a lembrança ainda conseguiu preservar.


Talvez o nosso amor nunca tenha sido feito para dividir uma casa.


Talvez ele tenha nascido apenas para escrever bons textos, inspirar canções, ensinar maturidade e lembrar que algumas pessoas nos atravessam para sempre, mesmo quando deixam de caminhar ao nosso lado.


Há amores que não pedem finais felizes.


Pedem apenas finais dignos.


E dignidade, às vezes, é resistir à tentação de voltar.


Por isso, se um dia a madrugada fizer você pensar em mim…


Se alguma música disser meu nome.


Se algum perfume trouxer minha lembrança.


Se alguma esquina parecer carregar um pedaço da nossa história…


Respire.


Espere mais um minuto.


Depois mais outro.


Deixe a saudade fazer o que ela sabe fazer: passar.


Porque eu conheço você.


E conheço a mim também.


Se você ligar, provavelmente eu vou atender.


Se você aparecer, talvez eu abra a porta.


Se você disser que sentiu minha falta, existe uma parte de mim que ainda acreditará em cada palavra.


E é exatamente por isso que eu peço que você não venha.


Não porque eu deixei de amar.


Mas porque, pela primeira vez, eu resolvi amar a mim mesma o suficiente para não aceitar viver a mesma dor com um nome diferente.


Alguns amores terminam quando acaba o sentimento.


O nosso não.


O nosso terminou quando eu entendi que sentir ainda era pouco para fazer dar certo.


E, às vezes, a maior prova de amor não é encontrar o caminho de volta.


É saber exatamente onde ele fica… e, ainda assim, escolher nunca mais percorrê-lo.


Renata Rocha

 
 
 

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