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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

Passei tanto tempo escolhendo você que esqueci de me escolher.

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • 13 de jul.
  • 3 min de leitura

Pensar nas escolhas que fizemos é uma forma de revisitar pessoas que já não existem mais. Porque a verdade é que, toda vez que escolhemos um caminho, deixamos uma versão de nós parada na esquina de algum "e se".


Esses dias me peguei fazendo exatamente isso.

Não por saudade. Nem por arrependimento.

Mas porque o tempo tem esse estranho talento de iluminar coisas que, quando aconteceram, pareciam completamente normais.


As grandes mudanças quase nunca chegam fazendo barulho.

Elas se escondem nas pequenas concessões.


No "depois eu vejo".

No "não tem problema".

No "dessa vez eu vou".


E, quando percebemos, já estamos vivendo uma vida construída por decisões que nunca imaginamos que seriam tão definitivas.


Foi assim comigo.

Demorei muito para entender que o amor que eu sentia por você também me tornava vulnerável às suas escolhas.

Porque, olhando para trás, percebo que você nunca precisou me conquistar de verdade.


Eu já estava ali.


Se você chamava, eu ia.

Se mandava mensagem, eu respondia.

Se ligava, eu atendia.

Se precisava, eu encontrava um jeito.

Era como se bastasse o seu desejo para que eu reorganizasse o meu dia, os meus planos e, aos poucos, até quem eu era.


Eu confundia disponibilidade com demonstração de amor.


Hoje sei que existe uma diferença enorme entre as duas.

Estar presente é bonito.

Mas desaparecer de si para caber na vida de alguém nunca foi amor. Foi excesso.


Talvez tenha sido exatamente esse o nosso desequilíbrio.

Você nunca precisou conquistar aquilo que sempre esteve ao alcance das mãos.

E as coisas que nunca exigem esforço costumam deixar de ser percebidas.


Hoje me pergunto quantas vezes adiei uma vontade minha para viver uma vontade sua.

Quantas oportunidades deixei passar.

Quantas opiniões engoli.

Quantas partes de mim ficaram esperando uma hora melhor para existir.


Não existe resposta.


Talvez, se as suas escolhas tivessem sido diferentes, eu também fosse outra pessoa.

Talvez não.

A imaginação sempre inventa destinos para uma vida que nunca será vivida. Ela cria finais mais gentis, conversas que nunca aconteceram e versões de nós que só existem porque o tempo não permite confirmação.

Mas existe uma certeza que ela não consegue mudar.

A minha disponibilidade acabou se transformando na sua tranquilidade.

E toda certeza, quando nunca é desafiada, corre o risco de virar acomodação.


Não escrevo isso para procurar culpados.

Nem para diminuir o amor que existiu.

O amor foi real.

O que talvez não tenha sido justo foi o lugar onde eu me coloquei dentro dele.


Passei tanto tempo tentando facilitar a sua vida que esqueci de perguntar como estava a minha.


Passei tanto tempo disponível para você que deixei de estar disponível para mim.

E essa foi a perda mais silenciosa de todas.


Porque ninguém percebe quando a gente vai desaparecendo aos poucos.

Nem quem está do lado.

Às vezes, nem a própria gente.


Hoje olho para aquela mulher com uma ternura que antes eu não tinha.

Ela amou do jeito que sabia.

Entregou porque acreditava que amor era isso: estar sempre pronta, sempre inteira, sempre acessível.

Ela não estava errada.

Só não sabia que amor também precisa preservar quem ama.


Que carinho não deveria custar autonomia.

Que reciprocidade não nasce da disponibilidade infinita de um lado, mas da escolha diária dos dois.


Hoje eu ainda acredito no amor.

Só não acredito mais em um amor que exija que eu me abandone para permanecer.

Porque, no fim, a vida sempre nos devolve o peso das escolhas.

Inclusive daquelas que fizemos em silêncio.

Principalmente das que, por muito tempo, nem percebemos que estávamos fazendo.


Renata Rocha

 
 
 

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