Bússolas Não Vêm de Fábrica
- Renata Rocha

- há 5 dias
- 2 min de leitura
É estranho imaginar que as pessoas sejam como bússolas. Que já cheguem prontas, apontando uma direção exata. Como se existisse um roteiro alinhado, um mapa capaz de revelar o que cada um pensa, sente ou esconde atrás de um olhar silencioso, numa tarde qualquer, sentados à mesa de um café na esquina.
Mas pessoas não vêm com legenda.
É como acreditar que filhos nascem acompanhados de um manual de instruções. Não nascem. E talvez seja justamente essa ausência de respostas que torne qualquer relação tão bonita quanto assustadora.
A gente passa a vida tentando desenhar quem está ao nosso lado, quando, na verdade, existem dias em que as pessoas simplesmente… estão. Nem sempre felizes. Nem sempre tristes. Apenas existindo entre as próprias tempestades.
Às vezes me pergunto se amei demais. Outras, se amei de menos.
Como naquela música que fala sobre portos e estações, também desembarquei em alguns lugares. Criei laços, construí vínculos, permaneci onde achei que deveria permanecer. Em alguns momentos, amei mais do que imaginava ser capaz. Em outros, fui embora antes de entender o que realmente sentia.
E, curiosamente, é depois que tudo passa que surgem as perguntas.
Por que não liguei, se queria ligar?
Por que não enviei aquela mensagem?
Por que não recalculei a rota?
Talvez a parte mais difícil de parecer forte seja justamente esquecer como é permitir-se ser frágil. A gente veste tantas camadas para sobreviver que, quando finalmente encontra um lugar seguro, já nem sabe como tirá-las.
Relacionamentos, compromisso, responsabilidade afetiva… Confesso que esses assuntos têm me assustado mais do que imaginei.
E aqui vai um desabafo para quem me acompanha.
Hoje, 23 de julho de 2026, faz poucos meses que me separei. Ainda não sei explicar exatamente o que isso significa. Minha vida seguiu. Tenho novos desafios, outras preocupações, outras guerras para enfrentar. Mas existe uma parte de mim que parece amortecida.
Não dói o tempo todo.
Também não voltou a sentir como antes.
E talvez eu nem queira que volte tão cedo.
Porque, no fim das contas, nunca existiu uma bússola indicando o caminho certo. Foi justamente tentando encontrar esse mapa, esse manual, essa direção perfeita, que tantas vezes nos perdemos.
Não, eu não estou perdida.
Mas confesso que, hoje, gostaria de ter uma bússola. Não para encontrar alguém. Apenas para atravessar certos dias em que tudo parece silencioso demais, e as paredes brancas fazem mais barulho do que deveriam.
Há quem diga que quem fala sobre amor ainda está sofrendo.
Eu discordo.
Falar sobre amor nunca foi sinônimo de permanecer preso a ele. Às vezes é exatamente o contrário. Quanto mais a gente coloca em palavras aquilo que sente, mais consegue ouvir a si mesmo. E, quando se escuta com honestidade, algumas respostas finalmente encontram espaço para existir.
Não tenho medo de falar sobre amor, perdas, decepções ou despedidas.
Talvez o que ainda me assuste seja perceber que o medo já não ocupa o mesmo lugar de antes.
E, de certa forma, isso também é um recomeço.
Renata Rocha




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