O peso do “e se"
- Renata Rocha

- há 2 dias
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Onde antes havia vida, agora existe um silêncio estranho. Um vazio que não chegou de uma vez. Foi ocupando espaço devagar, como fazem todas as perdas que realmente importam.
O brilho do girassol foi se apagando aos poucos. Não houve um instante exato em que ele morreu. Houve apenas dias. Pequenos dias. Pequenas desistências. Pequenos excessos.
A água que deveria mantê-lo vivo foi a mesma que o consumiu.
E talvez essa seja uma das verdades mais cruéis da vida: aquilo que pode salvar também pode destruir. Aquilo que alimenta, às vezes afoga. Aquilo que acolhe, às vezes sufoca.
As folhas secaram. Basta um toque e elas se desprendem dos galhos. Caem sem resistência. Frágeis. Tão frágeis quanto nós quando fingimos ser fortes.
Porque a verdade é que existe sempre um “e se”.
O “e se” mora nos lugares onde nada termina completamente. Mora nas conversas interrompidas, nas despedidas mal feitas, nas mensagens que poderiam ter sido escritas de outro jeito. Mora naquele último olhar que nunca sabemos interpretar.
E quando tudo parece finalmente acabar, ele aparece.
E se eu tivesse insistido mais?
E se eu tivesse ido embora antes?
E se eu tivesse ficado?
E se?
Talvez seja esse o peso que carregamos: não o que aconteceu, mas tudo aquilo que poderia ter acontecido.
Porque o “e se” nunca chega para trazer paz. Ele chega para abrir portas que já estavam fechadas. Para acender luzes em corredores que a gente lutou tanto para esquecer.
E por um instante, a gente acredita.
Acredita que ainda dá.
Acredita que talvez exista um caminho.
Acredita que, desta vez, o destino possa ser diferente.
Mas quase sempre voltamos para o mesmo lugar.
Os ruídos continuam sendo ruídos.
As distâncias continuam sendo distâncias.
As palavras continuam chegando tortas.
E a vida, com sua brutalidade silenciosa, nos devolve àquilo que tentávamos evitar.
Só que existe uma diferença.
Quando voltamos, já não somos os mesmos.
As esperanças perderam algumas cores.
As certezas ganharam algumas cicatrizes.
E o lugar para onde retornamos também mudou.
Ou talvez tenha sido apenas o nosso olhar.
Porque há lugares que deixam de ser casa quando entendemos o quanto precisávamos nos diminuir para permanecer neles.
E então o “e se” finalmente termina.
Não porque encontramos respostas.
Mas porque chega um momento em que a dor de permanecer na dúvida se torna menor do que a dor de continuar esperando.
E é nesse instante que entendemos: o mesmo lugar ainda existe, mas já não nos cabe.
E aquilo que um dia nos impedia de partir passa a ser exatamente o motivo pelo qual precisamos ir.
Renata Rocha




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