Depois da Notícia
- Renata Rocha

- há 2 dias
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Alguns dias eu me permito desacelerar. Hoje foi um deles.
Voltando para casa, no meio do trânsito, me fiz uma pergunta que deveria ser simples para alguém que vive uma redação todos os dias: afinal, o que é ser jornalista?
A resposta automática veio primeiro. Jornalista é quem informa. Quem conta histórias. Quem denuncia. Quem fiscaliza o poder. Quem dá voz a quem não tem voz.
Mas essa última resposta sempre me incomodou.
Dar voz em que sentido?
Quem realmente escuta essa voz?
Penso na dona Mariazinha. Não a conheço pelo nome, mas conheço centenas dela. Mora longe dos centros, numa rua que o mapa quase esqueceu de desenhar. Acorda cedo, carrega baldes de água na cabeça porque água encanada nunca chegou. Convive com a ausência da energia, do saneamento, do básico. Enquanto isso, nós, do outro lado da cidade, reclamamos quando a internet oscila por cinco minutos.
Quando a equipe chega, ela fala. Conta a rotina, denuncia o abandono, mostra a realidade. A matéria vai ao ar. Nós dizemos que demos voz.
Mas quem ouviu?
E, principalmente, quem fez alguma coisa depois de ouvir?
Talvez o jornalismo não esteja apenas na capacidade de contar histórias. Talvez esteja na coragem de permanecer nelas.
Dentro da redação, somos engolidos pelo factual. Um acidente acontece. Um ônibus tomba. Um crime mobiliza equipes. Um incêndio destrói quatro casas. Corremos. Gravamos. Entrevistamos moradores, bombeiros, autoridades. Mostramos o fogo consumindo paredes, os móveis espalhados pela calçada, a fumaça, o desespero, a solidariedade dos vizinhos.
O incêndio vira notícia.
E precisa virar.
Mas, quando as chamas se apagam, uma outra história começa. E quase ninguém volta para contá-la.
Quem limpa as cinzas?
Onde aquela família dormiu na primeira noite?
Quem estendeu a mão quando as câmeras foram embora?
O município ajudou?
Os vizinhos continuaram presentes?
Como alguém recomeça quando tudo o que levou uma vida inteira para construir cabe, agora, em um monte de entulho?
Essas perguntas quase nunca entram no espelho do telejornal.
Talvez porque não tenham imagens tão fortes.
Talvez porque não caibam no tempo de uma reportagem.
Ou talvez porque nós mesmos tenhamos aprendido, sem perceber, que a notícia termina quando o fato acaba.
Mas a vida não funciona assim.
A notícia dura minutos.
A dor continua por meses.
Às vezes, por anos.
Tenho pensado que talvez o papel do jornalista não seja apenas chegar primeiro. Talvez seja também voltar depois.
Voltar quando o silêncio ocupa o lugar das sirenes.
Quando a fumaça já desapareceu.
Quando ninguém mais se lembra do nome daquela rua.
Porque é justamente ali, quando o interesse coletivo vai embora, que a realidade de alguém continua.
E talvez seja aí que o jornalismo encontre sua forma mais honesta.
Não apenas mostrando o que aconteceu.
Mas se recusando a esquecer quem ficou.
Renata Rocha




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