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   Renata Rocha

​

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

​

A Estação Que Nunca Cheguei

Foto do escritor: Renata Rocha
Renata Rocha
16 de jun.
3 min de leitura

Não, eu não esqueci a música que sonhava tocar no nosso casamento.


As notas ainda ecoam em algum lugar da minha memória, como os pássaros em um amanhecer de domingo. Às vezes discretas, quase imperceptíveis. Às vezes tão escandalosas que parecem interromper o silêncio dos dias. Mas elas continuam ali. Sempre estiveram.

Durante muito tempo eu achei que estivesse me afastando daquela canção. Hoje, penso que talvez estivesse apenas dando voltas ao redor dela. Porque algumas lembranças não desaparecem; elas apenas mudam de lugar dentro da gente. Ficam escondidas entre páginas antigas, dentro de cadernos esquecidos, atrás de fotografias que já não olhamos com frequência. E basta uma faísca — uma frase, um cheiro, uma anotação perdida — para que tudo volte.

A música volta.

E, junto dela, voltam as perguntas.

Percebo que sou menos paciente do que já fui. Menos sonhadora. Menos inclinada a acreditar que o mundo se curva aos nossos desejos. O tempo vai ensinando algumas coisas e retirando outras. A gente perde certas ingenuidades pelo caminho. Aprende a conviver com as escolhas que fez e também com aquelas que a vida fez por nós.

Mas existe uma pergunta que continua me acompanhando.

Quando chegamos ao fim de uma estrada e precisamos escolher uma direção, será que erramos o caminho? Ou será que apenas deixamos de apreciar a viagem que escolhemos um dia?

Eu me faço essa pergunta porque passei anos atravessando estações.

E talvez o meu maior erro tenha sido esse.

Enquanto o mundo me oferecia paisagens, pessoas, culturas e possibilidades, meu olhar permanecia fixo em uma única parada. Eu observava a tua estação ao longe como quem observa uma montanha. E acreditava que bastava caminhar mais um pouco para alcançá-la.

Mas era estranho.

Sempre que eu chegava à próxima parada, a tua parecia ainda mais distante.

Eu esticava as mãos na tua direção e a distância aumentava. Eu acelerava o passo e o horizonte recuava. Era como tentar tocar o céu com a ponta dos dedos: quanto mais perto parecia estar, mais impossível se tornava.

E assim fomos vivendo.

Entre escolhas certas e erradas. Ou talvez escolhas que eram apenas possíveis dentro das circunstâncias que tínhamos. Porque o tempo muda as pessoas, muda os sonhos e também muda as estações. O que um dia parecia destino, depois se transforma em lembrança. O que parecia definitivo se torna apenas uma passagem.

Talvez tenha sido isso que aconteceu conosco.

Enquanto eu acreditava estar me aproximando, estava me afastando.

Hoje já não sei exatamente em qual estação me encontro. Algumas paisagens estão encobertas por nuvens que não existiam anos atrás. Certos caminhos perderam as placas. E algumas respostas ficaram escondidas em lugares onde já não consigo alcançar.

O que sei é que existem viagens que vão ficando difíceis de continuar.

Não porque falte coragem.

Mas porque, em algum momento, a gente se cansa de perseguir horizontes que insistem em caminhar para longe.

Ainda vejo os trens passando. Vejo plataformas cheias de gente. Pessoas que se encontram todos os dias, mas raramente se enxergam. Vejo chegadas, despedidas e recomeços acontecendo ao mesmo tempo.

E fico ali.

Em silêncio.

Observando.

Tentando entender se vale a pena continuar correndo atrás da próxima estação ou se existe alguma sabedoria em simplesmente parar e admirar a paisagem.

Porque talvez o segredo nunca tenha sido chegar.

Talvez a vida não aconteça no destino.

Talvez ela aconteça justamente entre uma estação e outra.

E talvez aquela música que eu sonhava ouvir no nosso casamento tenha permanecido viva por todos esses anos para me lembrar disso: algumas histórias não ficam porque aconteceram. Algumas ficam justamente porque não aconteceram.

E, ainda assim, encontram uma maneira de nos acompanhar para sempre.


Renata Rocha

 
 
 

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