A Saudade Tem o Teu Nome
- Renata Rocha

- há 4 dias
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Quando eu penso em ti, penso em recomeços.
Penso naquelas histórias que não terminaram exatamente, apenas mudaram de forma. Histórias que deixaram de ocupar espaço no presente para construir morada permanente na memória. Penso em saudade. Penso em despedidas. Penso na estranha capacidade que algumas pessoas têm de continuar existindo dentro da gente mesmo depois de terem partido.
Quando eu penso em ti, lembro de tardes chuvosas.
Lembro daquele céu carregado que parecia anunciar tempestades enquanto, dentro de mim, tudo florescia. Lembro dos olhares trocados em salas cheias de gente, onde muitos falavam sem dizer nada e poucos conseguiam ouvir aquilo que realmente pulsava. E nós ouvíamos. Mesmo no silêncio. Mesmo quando nenhuma palavra era dita.
Havia uma linguagem secreta na forma como nossos olhos se encontravam.
E talvez tenha sido ali que tudo começou.
Quando eu penso em ti, percorro corredores inteiros da memória. Vejo meus olhos marejados e aquela vontade absurda de permanecer. Apenas ficar. Não importava onde aquele caminho nos levaria. Não importava se havia certezas ou garantias. Eu só queria continuar caminhando.
Lembro de ti com os cabelos longos, sorrindo ao me encontrar em uma quarta-feira qualquer. E talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão especial: não havia necessidade de grandes acontecimentos. Bastava tua presença. Bastava o teu sorriso surgindo no meio de um dia comum para transformar completamente a paisagem.
Em dias cinzentos como este domingo de abril, quando o mundo parece andar mais devagar, às vezes fecho os olhos e me desconecto de tudo. Das notificações, das cobranças, da correria que a vida adulta insiste em impor. E então te encontro.
Ainda vejo aquele sorriso.
Ainda vejo o aparelho que eu sempre achei tão teu.
Ainda vejo detalhes que o tempo deveria ter apagado, mas não apagou.
Porque algumas lembranças desafiam os anos.
Quando eu lembro de ti, sinto cheiro de vida. De esperança. De futuro. De vontade. Tu foste uma dessas raras pessoas que chegaram trazendo luz para os cantos mais silenciosos da alma. E talvez por isso tua lembrança ainda carregue esse perfume de possibilidade.
Mas quando eu penso em ti, também sinto o peso do medo.
O meu.
O teu.
Os nossos.
Sinto o peso dos planos que precisavam dar certo. Das responsabilidades que pareciam maiores do que nós. Das escolhas que exigiam coragem numa época em que talvez nenhum dos dois soubesse exatamente quem era.
E por isso a incerteza nunca competiu com a certeza.
A verdade é que ela nem teve chance.
Porque havia decisões que precisavam ser tomadas e caminhos que pareciam inevitáveis. Naquela época, a vida não nos perguntava o que queríamos. Ela apenas nos empurrava para frente.
E como eu poderia te culpar?
Nunca pude.
Talvez porque hoje eu entenda aquilo que na época só conseguia sentir.
Como exigir de alguém uma resposta definitiva quando eu mesma ainda era uma coleção de perguntas?
Eu era uma menina sonhadora tentando vestir a roupa da maturidade. Tentando parecer forte. Tentando parecer pronta. Mas a verdade é que ninguém me perguntou se eu estava preparada. A vida simplesmente aconteceu.
E eu fui aprendendo a sobreviver enquanto caminhava.
Quando volto àquelas tardes, consigo sentir novamente a brisa tocando meu rosto.
Consigo ouvir o som distante da cidade.
Consigo me ver tentando acompanhar teus raciocínios, tuas ideias, teus planos, enquanto secretamente me encantava pela forma como enxergavas o mundo.
A vida era intensa.
Agitada.
Cheia de adrenalina.
E não apenas sobre aquela moto.
Embora, se eu for sincera, ela tenha sido testemunha de alguns dos meus momentos favoritos.
Porque ali o mundo desaparecia.
Não havia passado.
Não havia futuro.
Existia apenas o vento, a estrada e nós.
Eu te abraçava firme enquanto as curvas passavam diante dos nossos olhos. Sentia o calor do teu corpo atravessar o frio da velocidade. E por alguns instantes tinha a impressão de que éramos invencíveis.
Como se a juventude fosse eterna.
Como se o amor fosse suficiente para resolver qualquer problema.
Como se o tempo nunca fosse nos alcançar.
Lembro das tuas mãos gentis repousando sobre minhas pernas.
Lembro de tentar ouvir as batidas do teu coração enquanto escondia as minhas.
Lembro de cada despedida que acontecia rápido demais.
De cada tarde que parecia curta demais.
De cada beijo que carregava uma urgência difícil de explicar.
Hoje percebo que talvez eu sentisse, sem saber, o gosto do teu medo.
E talvez tu sentisses o meu também.
Porque amar alguém nem sempre significa estar pronto para ficar.
Às vezes significa apenas encontrar a pessoa certa na estação errada.
E essa talvez seja uma das dores mais silenciosas da vida.
Quando eu lembro de ti, sinto um frio percorrer a espinha.
Um daqueles arrepios que chegam sem avisar.
E então um sorriso surge sozinho.
Daqueles que ninguém vê.
Daqueles que nascem da gratidão.
Porque apesar de tudo, nunca consegui olhar para nossa história com amargura.
Existe saudade.
Muita.
Existe ausência.
Existe a curiosidade inevitável sobre quem teríamos sido se tivéssemos escolhido diferente.
Mas também existe gratidão.
Pela menina que eu era.
Pelo homem que tu eras.
Pelas tardes.
Pelas conversas.
Pelos sonhos.
Pelos caminhos.
Pela coragem que tivemos e também pelos medos que nos venceram.
Porque hoje entendo que algumas pessoas não chegam para ficar.
Chegam para ensinar.
Para despertar.
Para transformar.
E depois seguem viagem.
Mas há algo curioso sobre certos encontros.
Eles nunca terminam completamente.
Continuam vivendo em músicas inesperadas.
Em ruas conhecidas.
Em dias chuvosos.
Em domingos de abril.
Continuam vivendo em versões nossas que só existiram porque um dia cruzaram o caminho daquela pessoa.
E talvez seja por isso que, depois de todo esse tempo, quando penso em ti, ainda não penso apenas em saudade.
Penso em amor.
Não aquele amor que pede retorno.
Nem aquele que exige presença.
Mas aquele amor sereno que aprende a existir apenas como lembrança.
Porque algumas pessoas partem da nossa vida.
Mas nunca partem inteiramente de nós.
E tu és uma delas.
Por isso, quando penso em ti, fecho os olhos por alguns segundos e deixo a memória fazer o que sabe fazer melhor.
Ela te devolve para mim.
Com teu sorriso.
Com teus sonhos.
Com teus medos.
Com tua voz.
E por um breve instante, quase consigo acreditar que aquelas tardes ainda existem em algum lugar do tempo.
E confesso:
Ainda sinto saudades.
Renata Rocha




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