As Estações Que Não Estão no Calendário
- Renata Rocha

- há 7 dias
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Talvez as estações mais difíceis de atravessar não sejam aquelas que aprendemos ainda no ensino fundamental. Verão, outono, inverno, primavera. Essas a gente decora. Sabe quando chegam, imagina quanto duram e até separa as roupas certas para cada uma delas.
As outras, não.
As estações que realmente desafiam a gente não aparecem em nenhum calendário. Elas chegam sem aviso, permanecem pelo tempo que querem e vão embora sem pedir licença numa bela manhã de segunda-feira.
São as estações dos dez anos, dos quinze, dos vinte.
Depois, curiosamente, parece que elas ficam mais curtas. Ou talvez sejamos nós que aprendemos a atravessá-las sem fazer tanto barulho. Cada década passa a carregar menos urgência e mais consciência. A vida deixa de ser uma corrida para se tornar um caminho.
Nem sempre um caminho fácil.
Há estações em que tudo o que a gente deseja é que o tempo corra. Que a dor passe. Que o peso diminua. Que a vida pare de exigir tanto de nós.
Mas existem outras em que a vontade é permanecer. Como quem encontra um lugar onde finalmente consegue respirar.
Tenho um carinho especial pelos vinte e cinco.
Talvez porque essa seja uma idade curiosa. Você já colecionou algumas cicatrizes, mas ainda não perdeu o espanto. Já descobriu que o mundo não é exatamente como imaginava, mas continua acreditando que ainda pode construir o seu lugar nele.
Foi só quando cheguei aos trinta que entendi isso.
Mas trinta não foram uma resposta. Foram uma decisão.
Foi quando percebi que ninguém escolheria por mim quem eu seria. Que meus desejos precisavam ter menos plateia e mais verdade. Que agradar todo mundo era um preço alto demais para pagar.
Desde então, tenho tentado viver com mais fidelidade a mim mesma.
Hoje sei melhor do que gosto. Do que me emociona. Do que me faz rir. Do que me acalma. Do que desperta em mim vontade de continuar. E mais imprtante, o que me faz querer não permanecer a qualquer custo.
A vida não ficou mais fácil.
Mas eu fiquei mais inteira.
Talvez seja isso que as nossas estações façam. Elas não chegam para nos mudar de uma vez. Chegam para retirar, aos poucos, tudo aquilo que nunca foi nosso de verdade.
E, quando vão embora, deixam uma versão de nós que, finalmente, parece caber na própria pele.
Renata Rocha




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