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   Renata Rocha

​

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

​

O Espelho Nunca Mais Reflete do Mesmo Jeito

Foto do escritor: Renata Rocha
Renata Rocha
19 de jul.
2 min de leitura

Vez ou outra eu escrevo sobre isso.


Talvez, para quem me acompanha, pareça repetitivo. Talvez você pense que eu estou voltando sempre ao mesmo lugar.


Mas ninguém permanece igual por muito tempo.


Nem mesmo diante da mesma dor.


Há dias em que eu sinto que o meu coração virou pedra.


Não porque deixou de sentir, mas porque aprendeu que sentir também machuca.


É estranho perceber que, em algum momento do caminho, alguma parte de mim ficou para trás. Como se eu tivesse seguido em frente carregando apenas o suficiente para continuar existindo.


E existe uma diferença enorme entre existir e estar inteiro.


Hoje eu não confio plenamente nas pessoas.


Não deixo que elas se aproximem com facilidade.


Não porque eu ache que todo mundo vai me machucar.


Mas porque eu descobri que quem conhece as nossas fragilidades também conhece o lugar exato onde dói.


E esse conhecimento, quando usado como arma, deixa marcas difíceis de apagar.


Por isso, muitas vezes, eu vou embora antes.


Prefiro ser eu quem fecha a porta.


Prefiro virar as costas antes que alguém faça isso comigo.


É uma tentativa ingênua de acreditar que, se eu escolher a despedida, ela vai doer menos.


Nunca dói.


Tem coisas dentro da gente que quebram como um grande espelho pendurado na parede de uma sala.


Quando ele cai, o primeiro impulso é perguntar como aconteceu.


Depois vem o silêncio.


Porque não importa o cuidado que você tenha, um espelho partido nunca volta a ser o mesmo.


A gente até tenta.


Recolhe os pedaços com todo o cuidado do mundo.


Guarda alguns.


Transforma outros em decoração.


Diz para si mesmo que agora eles têm uma nova utilidade, uma nova beleza.


Mas a verdade é que nenhum daqueles cacos voltou a refletir como antes.


Cada pedaço mostra apenas um fragmento.


Um olho.


Uma mão.


Metade de um sorriso.


Nunca a pessoa inteira.


Às vezes acho que foi isso que aconteceu comigo.


Eu ainda existo.


Mas me vejo em partes.


Um pedaço aprendeu a desconfiar.


Outro prefere o silêncio.


Outro se acostumou tanto com a solidão que já nem sabe distinguir paz de isolamento.


Talvez sejam os traumas.


Talvez os medos.


Talvez as inseguranças que a gente passa tanto tempo escondendo que acabam acreditando que pertencem à nossa personalidade.


Eu não sei.


E, para ser sincera, nem sempre quero explicar.


Existem dores que a gente não conta porque faltam palavras.


Outras, porque faltam coragem.


E algumas porque, depois de tanto tempo, a gente já nem sabe onde elas começaram.


Só sei que ainda procuro o meu reflexo.


Na esperança de que, um dia, entre tantos pedaços espalhados dentro de mim, eu consiga me reconhecer outra vez.


Renata Rocha

 
 
 

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