Quando a Alma Sorri Pelos Olhos
- Renata Rocha

- há 21 horas
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Os olhos dela sorriem antes mesmo da boca entender o que está acontecendo.
É uma coisa rara. Daquelas que não se aprende, não se ensaia e não se fabrica. Simplesmente acontece. Surge no meio de uma conversa qualquer, de uma lembrança boba, de uma gargalhada que escapa sem pedir licença. E então os olhos dela se iluminam.
Quando isso acontece, parece que tudo conversa entre si.
Os olhos falam com a boca. A boca responde ao nariz. O rosto inteiro se torna uma única expressão, como se cada traço tivesse esperado pacientemente por aquele instante para finalmente ocupar seu lugar. Não existe exagero, não existe esforço. Apenas harmonia.
Ela sorri e, por um segundo, parece deixar de enxergar com os olhos.
Enxerga com a alma.
É como se algo dentro dela flutuasse. Como se o peso do mundo diminuísse. Como se a vida, por mais complicada que seja, coubesse inteira dentro de um instante de luz.
Mas aqueles olhos já viram muito.
Carregam histórias que ninguém conhece completamente. Guardam despedidas, silêncios, ausências e noites em que o sono demorou a chegar. Já testemunharam medos que nunca foram contados em voz alta e batalhas travadas no território invisível do coração.
Talvez, ao final de alguns dias, uma lágrima encontre o caminho até o travesseiro.
Talvez existam noites em que o cansaço seja maior que a esperança.
Mas ela aprendeu uma verdade que só o tempo ensina: alguns dias são assim.
Alguns dias chegam para nos desafiar.
Outros chegam apenas para serem atravessados.
E há aqueles que passam por nós como tempestades, levando embora partes que acreditávamos permanentes.
Ainda assim, quando amanhece, os olhos dela continuam ali.
Firmes.
Vivos.
Cheios de uma delicadeza que não se confunde com fragilidade.
Porque existe uma força bonita nas pessoas que continuam acreditando na luz mesmo depois de terem conhecido a escuridão.
Os olhos dela falam.
Falam muito.
Mesmo quando ela não diz absolutamente nada.
Eles revelam aquilo que as palavras não conseguem alcançar. Entregam emoções que a razão tenta esconder. Contam histórias inteiras em poucos segundos. Há dias em que carregam saudade. Em outros, carregam coragem. E às vezes carregam apenas a simplicidade de quem decidiu continuar.
São olhos cor de mel.
Daqueles que mudam conforme a luz.
Sob o sol claro, parecem guardar pequenos pedaços de ouro. Como se o dia tivesse escolhido morar dentro deles. Tornam-se intensos, luminosos, impossíveis de ignorar.
Mas quase sempre permanecem escondidos.
Atrás de óculos grandes que insistem em ocupar o centro da cena.
Talvez por isso nem todo mundo perceba.
Nem todo mundo enxerga a beleza que existe ali.
Nem todo mundo nota que, atrás das lentes, existe um universo inteiro.
Existe uma menina que sente profundamente.
Que pensa demais.
Que ama em silêncio.
Que carrega o mundo nas costas algumas vezes e, em outras, aprende a deixá-lo descansar.
Uma menina que ainda não percebeu completamente o efeito que causa quando sorri.
Porque quando ela sorri, algo se organiza.
Como se o universo, distraído e bagunçado, encontrasse por um instante o lugar exato onde deveria estar.
E talvez ela nunca saiba disso.
Talvez nunca perceba que algumas pessoas se lembram mais dos seus olhos do que das suas palavras.
Que algumas presenças permanecem justamente por causa da luz que carregam.
Que certos olhares têm o dom de acolher sem tocar.
De abraçar sem os braços.
De curar sem prometer cura.
Os olhos dela são assim.
Guardam tempestades, mas refletem amanheceres.
Conhecem a dor, mas escolhem a ternura.
Já choraram muito, mas continuam acreditando na beleza.
E talvez seja exatamente isso que os torna tão fascinantes.
Não a cor.
Não o brilho.
Não a forma.
Mas a alma que mora dentro deles.
Porque existem olhos que enxergam o mundo.
E existem olhos que iluminam o mundo.
Os dela fazem os dois. ( |Esses dias percebi a beleza dos meus olhos e surgiu o texto em questão)
Renata Rocha




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