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   Renata Rocha

​

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

​

Dois Universos no Mesmo Endereço

Foto do escritor: Renata Rocha
Renata Rocha
18 de jul
2 min de leitura

Conviver talvez seja a experiência mais bonita e, ao mesmo tempo, a mais desafiadora que existe.


E nem estou falando da convivência com os outros. A primeira batalha acontece dentro de nós. Todos os dias.


Passamos boa parte da vida tentando entender quem somos, negociar com os nossos medos, administrar inseguranças, silenciar excessos, acolher faltas. Já é um trabalho enorme habitar o próprio universo.


Agora imagine quando dois desses universos decidem dividir o mesmo endereço.


Cada pessoa chega carregando uma história, uma infância, manias, traumas, sonhos e uma coleção de silêncios que nem sempre consegue explicar. Não existe manual para juntar tudo isso sem provocar algum choque.


É como misturar temperaturas extremas. O quente encontra o frio. O doce esbarra no amargo. Se um invade demais o espaço do outro, a mistura perde o equilíbrio. Se cada um insiste em permanecer exatamente como sempre foi, talvez nunca exista, de fato, uma mistura.


Conviver é essa tentativa permanente de encontrar uma temperatura possível.


Talvez a grande ingenuidade seja acreditar que amar alguém elimina a necessidade de continuar sendo quem se é.


Não elimina.


Existem dias em que tudo o que queremos é dividir a vida. Fazer planos, viajar, cozinhar juntos, assistir a um filme qualquer no sofá. Mas também existem dias em que o único desejo é voltar para dentro de si. Ler um livro em silêncio. Caminhar sem destino. Tomar um café sem precisar preencher o vazio com conversa.


Eu, por exemplo, gosto de fazer isso aos domingos. Saio para passear comigo.


E nunca entendi por que aprendemos a interpretar esse tipo de solitude como ausência de amor.


Desde quando precisar da própria companhia significa amar menos a companhia do outro?


Talvez seja justamente o contrário.


Quem não consegue ficar consigo mesmo acaba depositando no outro a responsabilidade de preencher todos os vazios. E nenhum amor suporta carregar um peso que nem pertence a ele.


No fim, conviver talvez seja isso: descobrir que duas pessoas não precisam deixar de ser universos para caminhar na mesma direção.


Porque amor não é fusão.


É a delicada escolha de permanecer, mesmo sabendo que o outro continuará sendo um mundo que nunca será completamente decifrado.


Renata Rocha

 
 
 

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