Talvez eu também sinta falta de quem um dia fui
- Renata Rocha

- 13 de jul.
- 2 min de leitura
Eu entendo quando você diz que sente falta de quem eu era. E talvez a parte mais difícil dessa conversa seja admitir que eu também sinto.
Não digo isso com nostalgia bonita. Digo com a honestidade de quem sabe que algumas versões de nós ficam pelo caminho sem que a gente perceba exatamente em qual curva as deixou.
Eu era mais impulsiva. Acreditava que sentir tudo era uma prova de que estava vivendo. Colocava intensidade onde hoje coloco silêncio. Corria atrás, insistia, me explicava, me gastava.
Hoje, não.
Não porque deixei de sentir. Mas porque aprendi que sentir também cansa.
Aprendi, às vezes da pior forma, que nem toda batalha merece a minha energia e que nem toda ausência precisa ser preenchida por mim. Descobri que a paz não faz tanto barulho quanto o caos, mas dura muito mais.
Se eu me afasto, quase nunca é sobre o outro. É sobre mim. É a maneira que encontrei de respirar quando tudo dentro de mim começa a fazer muito barulho.
Eu já não vivo como se o mundo fosse acabar amanhã. E, curiosamente, foi quando deixei essa urgência de lado que comecei a viver melhor. Hoje eu faço planos. Organizo meus dias, minhas expectativas e, principalmente, o espaço que cada pessoa ocupa dentro de mim. Não porque me tornei fria. Mas porque finalmente entendi que a gente pode escolher boa parte das dores que aceita carregar.
Hoje eu respondo depois de pensar. Escolho quais discussões merecem atravessar a porta da minha casa. Aprendi que nem tudo precisa virar cicatriz.
E talvez seja por isso que o extraordinário já não me seduza tanto.
Hoje eu desejo o simples. O fácil que exige maturidade, não descuido. Relações em que ninguém precise implorar por presença, disputar atenção ou sobreviver de migalhas de afeto. Quero aquilo que floresce porque os dois escolhem cuidar, não porque um insiste até se esgotar.
Também é verdade que meus medos cresceram.
Eles já não são fantasmas distantes. Sentam comigo, tomam café e, às vezes, tentam conduzir minhas escolhas.
Tenho medo de decepcionar quem acredita em mim. Talvez por isso eu demore tanto para permitir que alguém conheça as minhas rachaduras.
Tenho medo de errar comigo mesma. De escolher um caminho tão distante da minha essência que eu precise deixar sinais pelo percurso para conseguir encontrar o caminho de volta.
Tenho medo de confiar demais na força que construí e, justamente por acreditar que dou conta de tudo, esquecer que também preciso de colo.
Mas existe uma diferença importante entre a mulher que eu era e a que sou hoje.
Antes, os meus medos me comandavam.
Hoje, eles apenas caminham ao meu lado.
Eles continuam existindo. Mas já não decidem por mim.
Renata Rocha




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