TODOS OS DIAS
- Renata Rocha

- 10 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
É difícil, não é?
Conciliar. Ajustar. Organizar tudo. O que antes chamávamos de prioridade tornou-se um gesto automático, engolido pela correria dos dias. Tudo acontece depressa demais. Acordamos, tomamos café, vamos trabalhar… e, quando nos damos conta, metade do dia já se foi – e ainda há tanto por fazer. Sinto que caminhamos como quem traz à frente do rosto caixas quadradas, que nos impedem de ver para os lados. Seguimos em linha reta, mecanizados. Nada parece ter cor. Nada surpreende. Tudo se repete, tudo é ausente.
No meio deste turbilhão chamado “vida adulta”, as responsabilidades sugam-nos. Resolvo um problema aqui, apago um incêndio ali – basta – eu preciso respirar. Só por um instante, quero lembrar que ainda vivo dentro de mim. Que não sou apenas um sistema programado para lidar com crises – pessoais ou profissionais. Preciso sentir que ainda consigo distinguir o que faz sentido em mim daquilo que deve ficar à porta. Caso contrário, a minha mente vai colapsar – e não há óculos que apaguem o ardor dos olhos cansados e inundados de sal.
Dias destes, reparei que as flores no canteiro de obras por onde passo nunca morrem. São vermelhas, com pontas que lembram lanças (embora nunca tenha parado para observar com atenção). É curioso, porque costumo apanhar sempre uma. Quando entrei no prédio da televisão com a flor na mão, percebi que nunca lhe agradeci.
Limitei-me a seguir o meu percurso, pegar a flor e continuar – afinal, há sempre uma estrada por atravessar e os carros não esperam. Com o tempo, isso virou hábito. Às vezes, nem olho – a minha mão já conhece o caminho. Acredito que esse curto intervalo entre descer do autocarro, atravessar a pista e entrar no edifício seja um dos poucos momentos de inspiração que ainda cultivo durante o dia. E assim sigo, mais uma vez, a tentar conciliar, organizar, alinhar… dar conta de tudo. Amanhã, recomeço. Sempre.
Renata Rocha




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