Quando tudo contraria

Alguns dias parecem desafiar a lógica.
Não a lógica das coisas. A lógica da nossa própria paciência.
É como se até o vento escolhesse soprar na direção contrária justamente quando a gente mais precisa dele a favor.
Penso nisso agora, voltando para casa depois de uma sexta-feira carregada de documentos, impasses, assinaturas, papéis, decisões que não se resolvem e demandas que, em tese, deveriam ser apenas parte da rotina.
Em tese.
Porque há dias em que tudo parece decidir funcionar ao contrário. Nada flui como deveria. Nada encaixa. Até a tinta da caneta parece acabar exatamente quando você mais precisa dela. Como se o universo inteiro conspirasse para atrasar o que já estava difícil.
E o mais curioso é que nem sempre o peso está nas grandes tragédias. Às vezes ele mora justamente na soma das pequenas coisas. Um problema aqui, outro ali. Uma porta que não abre. Um telefone que não atende. Um documento que falta. Uma resposta que não chega.
Quando você percebe, já não sabe se olha para o céu e pede força ou se engole o choro que estacionou no limite dos olhos.
Não porque ele não mereça cair.
Mas porque não há tempo.
A vida continua chamando. A próxima assinatura espera. O próximo compromisso não pergunta como você está. O relógio não faz pausas para quem está cansado.
Então você segue.
Tentando reorganizar a lógica dos acontecimentos. Procurando uma explicação para o que talvez simplesmente não tenha nenhuma. Como quem insiste em remar contra uma correnteza esperando que, em algum momento, ela resolva mudar de direção.
É cansativo.
Muito.
Existem dias que parecem testar o limite da nossa paciência, da nossa boa vontade, da nossa capacidade de acreditar que ainda vale a pena insistir.
E talvez o maior ato de coragem, nesses dias, não seja vencer.
Seja apenas continuar.
Porque chega uma hora em que a gente para de lutar contra tudo o que não pode controlar e simplesmente aceita que fez o possível. Que entregou o que tinha. Que nem todo dia precisa terminar em vitória.
Alguns terminam apenas em sobrevivência.
E, por mais estranho que pareça, sobreviver também é uma forma silenciosa de vencer.
Renata Rocha




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