Quem realmente se importa?

Compreender a memória, a mente humana, talvez seja uma das tarefas mais difíceis do universo. Há dias em que a gente briga com o espelho. Questiona as decisões que tomou, as que não tomou e até aquelas que ainda serão tomadas- num futuro que nem chegou e que a gente sequer sabe se vai chegar.
Há dias em que eu converso comigo mesma.
E, nessas conversas, às vezes me pego pensando sobre quem realmente se importa. Quem, de fato, é importante. Porque a gente passa uma parte enorme da vida preocupado com a opinião da família, dos amigos, de quem mal conhece a nossa história. A gente se incomoda com comentários nas redes sociais, com olhares, julgamentos, expectativas. Como se houvesse uma plateia permanente observando cada movimento nosso.
Mas, no fim das contas, talvez não exista plateia nenhuma.
Ninguém está tão interessado assim no que você está fazendo.
Ninguém está contando quantas vezes você mudou o cabelo, qual sapato está usando, se escolheu a cor da estação, do verão ou da primavera. As pessoas estão ocupadas demais tentando resolver os próprios problemas, administrar os próprios conflitos e sobreviver à própria rotina.
É gente atravessando a rua com pressa porque o sinal para o pedestre parece sempre mais curto do que deveria. Gente esperando ônibus, correndo para o trabalho, olhando o celular, fazendo contas mentalmente, tentando chegar em casa antes de alguma coisa acontecer.
Todo mundo está tentando dar conta da própria vida.
Então, quem está vendo?
Quem está vendo você chegar primeiro e sair por último?
Quem percebe o quanto você se desdobra para fazer o trabalho de cinco, enquanto cinco pessoas, juntas, às vezes não fazem o trabalho de uma?
Quem percebe as horas que você entrega, o cansaço que acumula, os finais de semana que deixa para depois, os encontros que desmarca, o corpo que pede descanso e você insiste em ignorar?
Quem vê?
Essa pergunta me acompanha especialmente nos dias em que o corpo está cansado e a cabeça, ainda mais.
Porque, em algum momento, a gente precisa se perguntar: para quem estamos fazendo tudo isso?
É por nós?
É para que alguém reconheça?
É para provar alguma coisa?
Ou simplesmente porque começamos e, agora, parece mais fácil continuar do que admitir que talvez precisemos fazer diferente?
A verdade é que a gente vende o nosso tempo.
Vende a nossa força de trabalho. A nossa disposição. A nossa juventude. Vende alguns dos nossos melhores anos em troca de um salário, de uma oportunidade, de estabilidade, de uma promessa de futuro.
E não há nada de errado nisso.
Trabalhar é também uma forma de escolher como sobreviver. É transformar aquilo que temos - conhecimento, talento, tempo, força - em alguma coisa que nos permita seguir.
O problema talvez comece quando a gente esquece que o tempo vendido não volta.
Porque o dinheiro pode voltar.
O cargo pode mudar.
Outro trabalho pode aparecer.
Outra oportunidade pode surgir.
Mas aquela terça-feira em que você chegou em casa exausto não volta. A noite que você perdeu trabalhando não volta. O aniversário que você não foi porque precisava terminar alguma coisa não volta. A juventude que você entregou inteira a uma rotina também não volta.
E talvez seja por isso que alguns dias sejam tão difíceis.
Porque depois de passar horas sendo sugado pelo mundo, quando finalmente sobra silêncio, a gente começa a fazer perguntas que durante o dia não teve tempo de ouvir.
Isso faz sentido?
Por que eu faço o que faço?
Por que preciso fazer desse jeito?
Por que não tentar diferente?
E, se eu já cheguei até aqui, será que vale a pena continuar?
Talvez não exista uma resposta definitiva.
Talvez amadurecer seja justamente aprender a conviver com algumas perguntas sem precisar respondê-las imediatamente.
Porque nem toda dúvida é sinal de fracasso.
Às vezes, a dúvida é apenas o corpo pedindo mudança.
Talvez a gente não precise abandonar tudo. Talvez precise apenas parar de fazer tudo do mesmo jeito.
Talvez seja necessário olhar para a própria vida com a mesma honestidade com que olhamos para a vida dos outros e perguntar:
Se ninguém estivesse olhando, eu ainda escolheria viver assim?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis.
E também uma das mais libertadoras.
Porque, quando a gente entende que quase ninguém está prestando tanta atenção assim, alguma coisa muda.
A roupa deixa de importar tanto.
O comentário perde força.
O julgamento diminui.
A necessidade de provar alguma coisa começa a desaparecer.
E sobra você.
Você, diante do espelho.
Você, diante das suas escolhas.
Você, diante do tempo que ainda tem.
E talvez seja justamente aí que comece a parte mais importante da vida: quando a gente finalmente entende que não precisa ser visto por todo mundo.
Precisa apenas conseguir se enxergar.
Renata Rocha




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