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   Renata Rocha

​

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

​

Eu ainda estou chegando...

Foto do escritor: Renata Rocha
Renata Rocha
19 de ago.
3 min de leitura

Eu ainda tenho roupas espalhadas pela casa. Algumas estão dentro de caixas, outras em sacos, e talvez demore muito mais do que uma semana até que tudo encontre o seu lugar.


Ainda não me acostumei com a casa nova. Com o cheiro. Com a luz entrando diferente pelas janelas. Ainda não aprendi direito onde ficam os interruptores. Não sei exatamente que dia o caminhão do lixo passa. Não conheço os vizinhos.


Para ser sincera, não tenho prestado muita atenção nisso.


A casa nova ainda me desperta curiosidade. Há barulhos no teto que eu ainda não sei explicar. Pequenos sons que, principalmente à noite, parecem maiores do que são. Talvez seja apenas uma casa fazendo seus próprios barulhos. Talvez seja eu aprendendo a escutá-los.


Os dias parecem mais longos por aqui.


Na primeira noite em que dormi sozinha, lembro de ter pensado: será que eu vou conseguir dormir?


E dormi.


Talvez porque estivesse cansada demais para não dormir. Talvez porque o corpo, em algum momento, simplesmente desista de lutar contra o silêncio. Ou talvez porque, aos poucos, eu esteja aprendendo que solidão e silêncio não são necessariamente a mesma coisa.


Bom ou ruim, quem é que vai saber?


Ainda tenho muito o que arrumar.


Aos poucos, a rotina vai encontrando seus próprios caminhos. Os vasos de plantas começam a descobrir os cantos onde querem ficar. Uma coisa vai para um lado, outra muda de lugar. Algumas caixas continuam fechadas porque, sinceramente, ainda não sei se estou com vontade de abri-las.


E talvez isso não seja tão ruim.


É curioso pensar que, enquanto a gente arruma uma casa, também vai tentando arrumar a própria vida.


Eu ainda não sei que cor quero nas paredes. Talvez nem tenha decidido as cores que quero para essa nova fase. Ainda não sei muito bem quais histórias vou contar aqui. Não decidi, por exemplo, se vou trocar a torneira da pia.


E, pela primeira vez em muito tempo, algumas coisas podem esperar.


Tenho me sentido mais cansada do que de costume.


Talvez seja um cansaço físico. Talvez mental. Talvez os dois, misturados, como quase tudo que a gente não consegue explicar direito.


Talvez seja o cansaço de uma vida inteira tentando dar conta de tudo.


De resolver.


De organizar.


De cuidar.


De antecipar problemas.


De se responsabilizar por coisas demais.


Esses dias me peguei pensando nisso: até que ponto eu realmente quero tomar conta de tudo o tempo todo?


Eu quero?


Acho que não.


E essa talvez seja uma das coisas mais importantes que descobri no meio dessas caixas.


Eu não preciso decidir tudo agora.


Não preciso saber onde cada coisa vai ficar.


Não preciso ter uma resposta para cada barulho do teto.


Não preciso nem saber ainda se quero trocar a torneira.


Tem alguma coisa de muito libertador em perceber que nem tudo precisa ser resolvido imediatamente.


A casa ainda está meio bagunçada.


O teto ainda está sujo.


Tem roupa no varal.


Tem caixas esperando.


A geladeira precisa ser abastecida. Eu ainda preciso passar no supermercado. Preciso ir à loja olhar um fogão novo, porque, afinal, uma casa precisa de um fogão.


A vida continua pedindo pequenas providências.


Mas, no meio de tudo isso, talvez eu esteja aprendendo a não transformar cada providência em urgência.


Engraçado como, em uma semana, pode acontecer tanta coisa.


A gente muda de endereço.


Muda a rotina.


Muda o lugar das plantas.


Descobre novos barulhos.


Aprende novos interruptores.


E, numa noite qualquer, percebe que conseguiu dormir.


Sozinha.


Sem precisar que ninguém dissesse que estava tudo bem.


Talvez seja isso que essa casa esteja tentando me ensinar.


Que algumas coisas podem permanecer fora do lugar por algum tempo.


Que existem caixas que a gente abre quando está pronta.


Que há paredes que ainda não precisam de cor.


E que nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.


Talvez eu ainda não saiba exatamente como essa casa vai ficar.


Talvez eu também ainda não saiba exatamente como vou ficar.


Mas, por enquanto, está tudo bem.


Tem roupa espalhada.


Tem planta procurando lugar.


Tem um teto fazendo barulho.


Tem uma torneira que talvez eu troque.


Tem um fogão que ainda preciso comprar.


E tem uma mulher cansada, tentando descobrir como é viver sem precisar dar conta de tudo.


A casa ainda não está pronta.


Eu também não.


Mas hoje, quando anoitece, eu fecho a porta, acendo a luz -mesmo que ainda precise procurar o interruptor -e fico.


Talvez seja assim que uma casa começa a virar casa.


E talvez seja assim que a gente começa, aos poucos, a voltar para si.


Renata Rocha

 
 
 

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