MUDANÇAS

Existe alguma coisa de profundamente simbólico no ato de se mudar.
E talvez não seja sobre caixas, sacolas ou móveis. Talvez seja sobre a vida.
Porque, se a gente parar para pensar, passa a vida inteira se mudando de lugar. A gente muda de emprego, de casa, de cidade. Muda de relacionamento. Às vezes muda de país. E, nas mudanças mais silenciosas, muda de si mesmo.
Há versões nossas que ficam pelo caminho sem que a gente perceba.
Mas existe uma diferença curiosa entre mudar de vida e mudar de casa.
Quando a gente atravessa a porta de um lugar novo, existe um frio na barriga difícil de explicar. É o encontro com o desconhecido. A expectativa de uma decoração diferente, de uma janela por onde o sol vai entrar de outro jeito, de um canto que ainda não conhece nossas risadas, nossos choros, nossos silêncios.
Uma casa vazia tem um cheiro de futuro.
E, enquanto a gente empacota tudo, vai percebendo que aqueles sacos espalhados pela sala carregam muito mais do que objetos. Eles carregam pedaços de quem fomos. Uma caneca esquecida, um livro marcado numa página específica, um porta-retrato, uma toalha, uma planta… Tudo, de alguma forma, testemunhou uma fase da nossa vida.
É curioso como anos de conquistas conseguem caber dentro de algumas caixas.
Mais curioso ainda é perceber que aquilo que parecia indispensável já não faz tanto sentido.
Porque, no meio da arrumação, a gente descobre que o peso nem sempre está nas coisas. Está nas lembranças que elas guardam.
E talvez seja por isso que mudar doa um pouquinho.
Não porque estamos levando tudo.
Mas porque sabemos que alguma parte de nós vai ficar.
Eu sempre digo que, quando saímos de uma casa, nunca levamos tudo. Sempre deixamos alguma coisa. Um riso preso nas paredes. Um sonho que não aconteceu. Uma lágrima escondida no travesseiro. Um cheiro de café numa manhã qualquer. A marca de um quadro que um dia ocupou a parede. Um pedaço da nossa história continua morando ali, mesmo quando já não moramos mais.
Mas também é verdade o contrário.
Quando chegamos a uma casa nova, não chegamos vazios.
Levamos nossas cicatrizes, nossos aprendizados, nossas manias. Levamos fotografias, plantas, livros, memórias. Levamos quem sobrevivemos para nos tornar.
Hoje, enquanto organizava algumas malas, tive um pequeno atraso dentro de mim.
Como se, por alguns minutos, eu não estivesse apenas separando roupas ou encaixotando objetos.
Eu estava organizando uma vida inteira.
E foi nesse instante que percebi uma coisa.
Eu já não preciso de tanto.
Na verdade, quero levar bem menos do que trouxe. Bem menos do que conquistei.
Talvez a maturidade faça isso com a gente.
Ela ensina que espaço também é liberdade.
Que algumas conquistas pesam mais do que ajudam.
Que nem tudo merece atravessar a porta da próxima casa.
Há coisas que foram importantes apenas porque nos trouxeram até aqui.
E isso já basta.
Porque recomeçar também exige coragem para deixar.
Deixar objetos.
Deixar culpas.
Deixar expectativas.
Deixar versões antigas de nós mesmos.
Talvez o verdadeiro significado de uma mudança nunca tenha sido trocar de endereço.
Talvez seja descobrir que a casa mais importante continua sendo aquela que carregamos por dentro.
E essa, felizmente, pode ser reconstruída quantas vezes forem necessárias.
Renata Rocha




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