Quando até os lugares deixam de nos reconhecer...
- Renata Rocha

- 20 de mai.
- 2 min de leitura
Há dias em que a gente percebe, quase em silêncio, que os lugares não são mais os mesmos, ou talvez sejamos nós que deixamos de caber neles.
Tudo começa com uma lembrança suave, quase bonita demais para ser verdadeira. Um lugar da infância, um desenho que parecia infinito, uma rua, uma casa, uma pessoa. Era tudo tão inteiro. Tão nosso. E, de repente, não é mais. Ou melhor: continua sendo, mas de um jeito que já não reconhece a nossa presença.
O estranho disso não é apenas o distanciamento. É a sensação de retorno. Você volta - fisicamente, às vezes emocionalmente - e encontra tudo ali. As paredes, os cheiros, as memórias. Tudo intacto. Menos você. Você não está mais encaixado naquele espaço como antes. E isso não dói de forma escandalosa. Dói de um jeito quieto, quase educado, como quem pede desculpa por estar fora de lugar.
A gente começa a se perguntar em que momento foi embora de si mesmo. Em que curva da vida deixou de pertencer aos próprios cenários. Vai se afastando de pessoas que um dia foram abrigo, de amigos que foram casa, de versões de si que pareciam tão certas. E quando percebe, já não sabe mais exatamente onde ficou.
Porque a vida tem esse jeito estranho de nos empurrar para frente sem perguntar se a gente ainda está pronto para sair de onde estava.
E então começa a corrida. Não necessariamente uma corrida com destino claro, mas uma urgência constante de continuar indo. Indo sem saber muito bem para onde. Indo porque parar parece mais assustador do que avançar. E nesse movimento todo, a gente vai perdendo a nitidez das coisas. O mapa interno fica borrado. O norte deixa de ser norte.
Dizem que quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. Mas há dias em que isso não consola. Porque quando não se sabe para onde vai, qualquer caminho também pode ser um desvio de si mesmo. E o mais perigoso não é se perder do mundo - é se perder da própria referência de retorno.
Então vem o cansaço.
Um cansaço que não grita, não exige, não explica. Ele só existe. E se manifesta nas pequenas coisas: no olhar que se perde um pouco mais tempo do que deveria, na memória que insiste em voltar sem convite, na sensação de que tudo já foi mais simples, mesmo sem saber quando deixou de ser.
Às vezes, isso escorre em forma de palavras, de textos, de tentativas de organizar o que por dentro já não se organiza mais. E quanto mais se escreve, mais parece que se repete. Como se a linguagem também estivesse tentando alcançar algo que já não está no mesmo lugar.
Talvez o mais doloroso não seja ter mudado. Mas perceber que, em algum ponto, a gente deixou de se reconhecer no próprio caminho.
E ainda assim, mesmo nesse desencontro silencioso, há algo que insiste em permanecer. Uma espécie de fio invisível que não rompe totalmente. Um resquício de quem a gente foi - e talvez ainda seja, em algum lugar que a pressa não alcançou.
Porque no fundo, mesmo quando tudo parece distante, existe sempre uma parte que ainda tenta voltar.
Renata Rocha




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