Perfeitamente imperfeito
- Renata Rocha

- 1 de jun. de 2018
- 4 min de leitura
Alguns dias eu lembro de quando tinha quinze anos, naquela época eu ainda enxergava a vida cor de rosa. Acho que é uma das melhores fases das pessoas, perdendo apenas para aquela em que ainda estávamos no útero de nossas mães.
Aos quinze aninhos a gente acha que tudo vai ser perfeito quando chegarmos aos 18,20,25...e que só vai melhorar. A gente não tem nenhuma obrigação até então, exceto, estudar. Então a gente imagina assim. "Quando eu tiver 18 anos, já terei concluído o ensino médio, estarei ingressando na faculdade, terei muitos amigos, festas legais, bebidas a vontade e muitos esquemas. Com 25 eu já estarei formada e procurando meu primeiro emprego, talvez num relacionamento sério e encaminhando para a construção da minha família, ou eu estarei sozinha curtindo minha tal liberdade, talvez eu já esteja morando no meu apartamento e tudo vai ser perfeito, eu, minha casa, meu diploma e minha paz". Nossa, a gente viaja, tudo é lindo e perfeito. A gente pensa em absolutamente tudo, menos nas frustrações, nas perdas e nos fracassos. A real é que a gente planeja tanto um mundo lindo e "certinho", que não deixamos espaço para o que vem depois . A gente crê com todas nossas forças que tudo dará certo. A gente idealiza um amor, um cara ou uma garota legal. A gente suspira só em imaginar como será o rosto e o toque dessa pessoa. A gente planeja cada detalhe da vida a dois, as viagens, os domingos no sofá assistindo aquela série, os passeios pela praça, cinema ou parque. A gente planeja os jantares em família, as reuniões de trabalho, as pessoas novas que ainda vamos conhecer, os lugares que ainda vamos visitar. Tudo é lindo, belo e mágico. Nenhuma tragédia, nenhum desentendimento, nenhum boleto para vencer rsrsrs. E então a gente chega aos 18 e percebe que as coisas não são bem como imaginávamos 3 anos atrás. A gente se depara com uma realidade mais escura e pesada e, provavelmente menos rosa. A gente ainda não concluiu o segundo grau, não estamos na faculdade, temos dois amigos e nada festas, pegações ou bebidas. A gente sente pela primeira vez uma responsabilidade que nunca havíamos sentido antes,é como se ela estivesse se acumulando durante todo o caminho até ali e agora ela vem com toda sua força e não quer saber quem está no caminho dela. Então a gente descobre que para ingressar na tão sonhada faculdade, é preciso disputar com metade do mundo e virar noites e mais noites estudando num quarto escuro e repleto de marcações e murais pelas paredes. Descobre então que suas coisas são caras e você precisa contribuir com as despesas de casa e que precisa arrumar um emprego, já. Agora tem que conciliar trabalho, estudos, amizades, romances ( se é que vestibulando tem isso), festas, vida social. A gente percebe que todo fim de mês chega algumas cartas fixas até nós, conta de energia, água, telefone, gás...para não mencionar a fatura do cartão de crédito. Nesse momento a gente tem certeza que esqueceu de alguma coisa naqueles planos de vida perfeita. A vida então não parece ser tão florida.
Com 20 ou 21 anos, talvez a gente já tenha conseguido uma vaga na faculdade e nesse momento a gente tem ainda mais certeza de que as coisas só ficam mais pesadas e duras de aguentar. A gente não mora na cidade em que vai estudar e precisa se virar sozinho numa "terra" desconhecida, sem amigos ou mamãe para te acolher quando sentir medo. Você está sozinho jogado aos "leões" e precisa matar um por dia para sobreviver. Talvez você divida um quarto com uma louca da faculdade e precisa ralar ainda mais para alcançar seus objetivos, se formar e conseguir pagar as contas, tudo isso sem pirar muito, rezando para sobrar um trocado para uma tequila no final de semana rsrsrs. Bem, a gente sabe que não vai se formar aos 25 anos, essa é a única certeza que temos. Nesse ponto da estrada, a gente sabe também que o cara ou a garota perfeita não existe, e que eles vacilam pra caramba, erram mais do que acertam e que nos decepcionam dia sim e outro também. Eles não ligam na hora certa, não estão na hora certa, nem falam as coisas certas. Talvez a gente perceba que esse papo de perfeição é balela e que tudo não passa de uma invenção da nossa cabeça. Pois, na real essa pessoa perfeita nem existe, nem eu sou perfeita, porque eu vou querer alguém perfeito? Arrisco-me até dizer que esse alguém perfeito deve ser muito chato. Já pensou? Alguém que não erra nunca? Que chato deve ser isso, pois a graça está em descobrir o que é certo depois de saber o que é errado, né?. descobrimos que, o perfeito tão sonhado é, na verdade, o imperfeito em que vivemos, as brigas, as reconciliações, os abraços, os cheiros, isso é o nosso perfeito, mesmo que a gente nem se dê conta disso. Aos 23 anos a gente nem lembra mais daqueles sonhos que tinha aos quinze, ou lembra, mas tudo não passa de uma boa lembrança, pois tudo é tão real e corrido que nem conseguimos tempo para sonhar ou idealizar uma vida perfeita. A gente só quer conseguir pagar as contas, tentar ver os familiares num domingo durante o almoço em família e chegar vivo em casa, talvez uma pipoca de microondas, sentados no sofá assistido tela quente com alguém ou sozinha. Ao passar dos anos a gente passa a sonhar menos e, alguns, deixam até de sorrir com frequência, triste, disso eu sinto falta, com quinze anos a gente sorri de qualquer coisa, até das piadas sem graça do faustão. A vida vai passando e a gente nem se dá conta de ela está de fato, passando. Perfeição não existe, mas a gente tenta viver bem no nosso mundo imperfeito mais perfeito possível. Mas a vida não precisa ser tão dura e escura assim, você pode sonhar e idealizar, vez ou outra, só não esquece de ir atrás deles com os pés bem fixos no chão e com os olhos bem abertos. Depois de um tempo a gente entende que a perfeição está nos detalhes e nas poucas oportunidades. Basta saber identificar quando esta estiver próximo de você. Sorria, Sonhe, viva e sinta.
Renata Rocha rr




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