Onde Mora o Que a Gente Sente
- Renata Rocha

- 24 de abr.
- 2 min de leitura
Tem dias em que tudo o que a gente quer é voltar pra casa.
Mas não aquela casa de paredes, portas e janelas.
É uma vontade silenciosa de voltar pra um lugar onde a gente caiba inteiro, sem precisar explicar nada.
E tem fases em que o desejo é exatamente o oposto.
Ir embora.
Sair.
Desaparecer um pouco do lugar onde o corpo está, porque a alma já não se reconhece ali.
A gente cresce achando que casa é endereço.
Rua, número, bairro.
Mas a vida, com o tempo, vai desmontando essa ideia com uma delicadeza quase cruel.
Porque casa, no fundo, nunca foi sobre estrutura.
É sobre presença.
É sobre pertencimento.
É sobre quem fica… e, principalmente, sobre quem vai.
Tem momentos em que a casa vira só um lugar de passagem.
Os corredores parecem longos demais, os cômodos carregam um silêncio que pesa, e a bagunça não é só de objetos — é da vida inteira espalhada sem saber onde guardar.
A roupa largada pelo caminho, os sapatos esquecidos, a lavanderia acumulada…
Tudo parece dizer alguma coisa que a gente evita escutar.
E, às vezes, dá medo.
Medo de olhar em volta.
Medo de encarar as paredes que guardam memórias que já não cabem mais na gente.
Uma mancha de tinta esquecida num domingo qualquer vira símbolo de tudo aquilo que a gente não conseguiu consertar.
E então começam as perguntas.
Onde foi que deu certo?
Em que momento desandou?
Será que um dia esteve mesmo certo?
A gente tenta reorganizar a vida como quem rearruma um quarto bagunçado — mudando coisas de lugar, tentando encaixar versões de si que já não existem mais.
Mas, no meio disso tudo, vem o vazio.
Um vazio que não grita, mas ocupa.
E, aos poucos, a gente percebe que talvez nunca tenha sido sobre ter uma casa…
Mas sobre se sentir em casa.
E isso muda tudo.
Porque, no fim, casa é instante.
É abraço.
É riso solto numa tarde qualquer.
É o olhar de alguém que te reconhece mesmo quando você já não sabe mais quem é.
Casa é onde a gente pode existir sem esforço.
E talvez — só talvez — a vida seja exatamente essa busca:
não por um lugar fixo,
mas por momentos em que o coração descansa e diz, baixinho:
“é aqui.”

Renata Rocha




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