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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

Ohana

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • 24 de abr.
  • 2 min de leitura

Eu olho pra ela

e me pergunto

se, por um acaso,

ela pensa em mim

do mesmo jeito que eu penso nela.


Porque os olhos dela…

ah, os olhos dela —

são profundos como um amanhecer

desses que a gente não sabe

se vai ser sol ou chuva,

como um inverno em Belém,

imprevisível, íntimo, inteiro.


Ela me olha

como se lesse o que nem eu tive coragem de entender.

Olhos cor de mel,

que a luz clareia,

mas nunca revela por completo.


E foi nessa casa grande,

entre paredes marcadas,

bagunças esquecidas de um dia pro outro,

e restos de vida espalhados pelo chão,

que a gente se encontrou.


Sem aviso.

Sem contrato.

Sem sangue.


Mas, ainda assim,

família.


Ela corre, brinca,

desorganiza tudo —

e, curiosamente,

organiza o que em mim

ninguém mais alcança.


Porque é nesse caos pequeno,

nessas patas sujas tocando minhas mãos,

que eu entendo:

eu preciso ficar.


Ela não sabe explicar o amor,

nem prometer retorno,

nem medir ausência.


Mas, do jeito dela,

ela me escolhe.


E isso basta.


Quando eu a batizei de Ohana,

talvez eu já soubesse —

família é isso que não se abandona,

mesmo quando não se entende.


E quando eu saio,

deixo nela um pedaço meu

que insiste em ficar.


E volto —

sempre volto —

com uma urgência que não sei explicar,

como se estivesse me resgatando.


Às vezes me pergunto

se estou falhando,

se estou longe demais,

se estou sendo menos do que deveria.


Mas então eu olho pra ela,

agora cansada,

depois de mais um passeio longo

nessa noite escura de onze horas,

e entendo:


é aqui.


É aqui que a vida acontece.


Nesse amor que não pede,

não cobra,

não questiona —

só existe.


E, sem nem saber quem é,

esse pequeno ser

me ensina, todos os dias,

quem eu sou.

Ohana
Ohana

Renata Rocha, pra minha Ohana

 
 
 

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