O Fim Não Anula o Amor
- Renata Rocha

- 23 de mai.
- 2 min de leitura
Tem términos que acabam antes da despedida. E existem despedidas que continuam vivendo dentro da gente por muito tempo, mesmo depois do fim.
Outro dia eu ouvi uma música dessas que a gente já decorou sem perceber. Dessas que moram no fundo da memória e aparecem do nada, atravessando o dia sem pedir licença. E, em algum trecho, ela me levou até você. Não sei exatamente qual parte sua apareceu ali. Talvez nenhuma específica. Talvez tenha sido só a ausência inteira.
É estranho como algumas pessoas continuam existindo na gente mesmo quando já não existem mais na rotina.
Enquanto a música tocava, eu pensei sobre recomeços. Sobre essa mania que a vida tem de continuar mesmo quando a gente ainda queria permanecer parado em alguma lembrança. E eu acredito, de verdade, em recomeços. Não desses bonitos de filme, onde tudo faz sentido rapidamente. Mas daqueles silenciosos. Doloridos. Quase injustos. Recomeços de quem segue porque precisa, mesmo sem vontade. Porque a vida não pergunta se a gente está pronto.
E, no meio disso tudo, uma frase ficou ecoando na minha cabeça: quem decide terminar um relacionamento não tem o direito de se incomodar ao ver o outro seguir em frente.
Talvez pareça duro, mas existe uma honestidade enorme nisso.
Porque continuar não é traição. Recomeçar não apaga o que foi vivido. Encontrar novos caminhos não diminui o amor que existiu. Pelo contrário. Às vezes, seguir é a única forma de honrar aquilo que um dia foi importante.
Só que existe uma parte da história sobre a qual quase ninguém fala: quem vai embora também sente. Quem escolhe partir também perde alguma coisa no caminho. Às vezes perde muito.
Talvez, em algum reencontro da vida, exista mesmo aquele pensamento rápido e inevitável: “e se eu tivesse ficado mais um pouco?”. Talvez exista saudade. Talvez exista dúvida. Talvez exista até um certo vazio ao perceber que o outro conseguiu florescer longe daquilo que um dia parecia indispensável.
Mas amadurecer também é entender que amor não pode ser prisão emocional. Não pode ser posse. Não pode ser o desejo secreto de que alguém permaneça quebrado só para provar que nos amou.
Poucas coisas são tão bonitas -e tão difíceis- quanto ver alguém que a gente amou reaprendendo a viver. Mesmo quando isso dói na gente. Mesmo quando a nossa ausência participou diretamente desse recomeço.
Porque, no fim, a verdade é que nem sempre fazemos o que queremos. Depois de um tempo, a gente aprende a fazer o que precisa ser feito.
E isso não significa sofrer menos.
Só significa continuar.
Talvez separar não tenha sido o fim de tudo. Talvez tenha sido justamente o começo das versões de nós que nunca existiriam se tivéssemos insistido em permanecer iguais. Talvez você só tenha encontrado certas coisas porque, em algum momento, eu soltei a sua mão. E talvez eu também só tenha me encontrado depois de perder a coragem de continuar segurando.
Existem amores que não foram feitos para durar para sempre. Mas foram feitos para mudar a gente para sempre.
E isso também é uma forma bonita de permanecer.
Renata Rocha




Comentários