(In)acabado
- Renata Rocha

- 23 de mai. de 2021
- 2 min de leitura
Frases sem ponto final. Assuntos inacabados. Amores não concretizados.
Dizem que esses assuntos, quando não ditos, vividos, sentidos naquele instante é como se o tempo não "voasse". Coisas assim são como páginas riscadas e mantidas na escrivaninha. Você não sabe o que há por debaixo de todos os rabiscos. Então você começa a tentar olhar pelos vagos espaços entre uma linha e outra, mas não adianta, o olhos não conseguem mais ver. A grande injustiça é que, justamente por isso o corpo faz querer olhar novamente e novamente o rascunho, em vão. E então começam os conflitos e as infinitas perguntas. Quando? Onde? por que?
Quando eu deixei para trás. Onde se perdeu. Por que deixamos ir ou, por que fomos. No meio dessas perguntas sempre encontramos infinitos pontos de interrogação. Quase nunca uma resposta concreta, se é que esta existe.
A grande questão de assuntos inacabados é que eles sempre voltam. Quer seja na letra de uma canção no rádio. No perfume de um estranho trazido pelo vento. Quer seja no silêncio da madrugada. Esses momentos são como choques em momento de distração pós banho. Ele nos faz lembrar que não estamos imunes à realidade. Que nem sempre o tempo é tão eficaz. E que os velhos costumes são mais difíceis de se esquecer do que julgávamos ser. Nessas horas um filme se passa na nossa frente. Imagens como em flashback brincam à nossa frente. E em câmera disparam lembranças, sorrisos e lágrimas. É um processo. Tentar ignorar e não machucar-se ainda mais. Sim, machucar. Pois, mesmo que tenhamos a certeza de que algo ficou inacabado e incerto em algum momento, é necessário olhar sempre em direção ao horizonte. Afinal, quem vive de lembranças? Eis então a questão. Não se vive. O que de fato fica é a esperança do que poderia ter sido e não foi. Das palavras que deveriam ser ditas naqueles últimos instantes juntos e ficaram sufocadas no meio da garganta. Do carinho que foi reservado para o próximo encontro que não veio. Da viagem que não mais acontecerá. A música não mais composta. O que fica são justamente o que deveria ter sido e não foi por motivos que já deixamos de buscar. Nessas horas a sensatez teima em falar mais alto. E ela não hesita. Um segundo pareceu uma eternidade. Então eu tenho certeza de que um minuto de loucura, pode ter sido o mais próximo da realidade sonhada. Mais uma vez o conflito, é preciso sensatez para distinguir o que é e o que apenas poderia ter sido. É assim que fecho a agenda antiga rabiscada com textos que insisto em tentar ler e não consigo. Talvez amanhã, eu penso. E então volto para as páginas em branco na tentativa de escrever mais uma vez. Mas são apenas telas brancas. Faltam nelas a dose de loucura que eu só encontrei enquanto nos perdíamos pelo caminho conhecido. Faltam sonhos. Sobram justificativas.
Renata Rocha




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