Entre a correnteza e o silêncio: quando continuar já é um ato de sobrevivência
- Renata Rocha

- 20 de mai.
- 2 min de leitura
A gente cresce acreditando que a vida tem um roteiro claro, quase desenhado à mão, como se cada passo fosse nos levar inevitavelmente a algum lugar melhor, mais leve, mais certo. Quando somos crianças, o medo mais profundo quase sempre veste a mesma roupa: perder quem nos segura. A mãe, o pai, o chão. E a gente vai caminhando com esse medo silencioso dentro do bolso, fingindo que ele não pesa, enquanto o tempo vai passando e nos chamando para ser tudo aquilo que, um dia, disseram que a gente seria.
Mas a verdade é que crescer não é uma linha reta. É maré. E tem dias em que a maré não ajuda.
Nos últimos dias, tudo parece mais alto, mais denso, mais difícil de atravessar. A rotina continua existindo, o café até aparece na mesa, mas nem sempre encontra quem o queira de verdade. A fome some -e - não é de comida. É de sentido, de encaixe, de algo que não se sabe nomear, mas que faz falta mesmo assim.
Existe uma mania quase bonita de acreditar que o melhor ainda está por vir. E talvez seja isso que mantém a gente de pé: essa esperança teimosa, quase ingênua, de que em algum ponto à frente as coisas finalmente vão se alinhar. Mas há dias em que até essa crença parece distante, como uma luz vista debaixo d’água - existe, mas não aquece.
Nessas horas, a mente começa a pesar contra a própria mente. A gente se olha por dentro e não reconhece muito bem o reflexo. Parece que nada encaixa: nem o papel de filha, nem o de mãe, nem o de pessoa que simplesmente tenta. E o esforço, que em outros dias parece força, nesses vira questionamento. Como se tentar não fosse suficiente, ou talvez nem fosse o caminho certo.
E então vem esse pensamento silencioso, quase perigoso na forma como ele se apresenta: o de largar os remos. Não porque se quer o fim, mas porque a correnteza cansa. Porque remar o tempo todo contra o invisível dá a sensação de que, em algum momento, os braços vão falhar antes da água.
Mas a correnteza, por mais forte que pareça, não define o destino inteiro do barco. Ela engana com pressa, com volume, com ruído. Só que ainda existe o movimento, ainda existe o fôlego, ainda existe o fato simples - e muitas vezes esquecido - de que o barco continua.
E talvez seja aí que mora a parte mais silenciosa e mais verdadeira de tudo isso: não é sobre vencer a correnteza todos os dias. É sobre continuar existindo dentro dela, mesmo quando ela parece maior do que você.
Porque em algum ponto, sem anúncio, sem espetáculo, a água muda. O vento muda. E aquilo que hoje parece só peso começa, aos poucos, a virar caminho.
E quando isso acontece, a gente percebe algo quase arrebatador na sua simplicidade: não era fraude, não era falta, não era fim.
Era travessia.
(Para dias como este)
Renata Rocha




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