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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

Do Alto do Elevado, a Cidade Sangra

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • 29 de mai.
  • 2 min de leitura

Do alto do elevado, a cidade nunca dorme.

Ela pulsa. Grita. Sangra em silêncio.


Tem noites em que eu vejo apenas faróis. Fileiras intermináveis de luzes vermelhas desenhando um caminho cansado sobre o asfalto molhado. Carros presos no trânsito como pessoas presas na própria vida. Cada buzina parece um pedido de socorro que ninguém escuta.


Mas existem dias em que eu não vejo carros.

Eu vejo pensamentos.


Vejo alguém voltando para casa sem coragem de entrar. Vejo uma mulher limpando as lágrimas antes do sinal abrir. Vejo um homem acelerando não porque está atrasado, mas porque parar significaria pensar demais. Vejo gente fugindo da chuva das sete da noite como quem tenta fugir de si mesmo.


E a chuva sempre cai.

Como se a cidade soubesse exatamente a hora de desabar junto com as pessoas.


Tem dias em que os vidros embaçados escondem rostos. Em outros, escondem sonhos. Sonhos cansados. Sonhos apertados no banco de trás. Sonhos que pegam ônibus lotado, que sobrevivem com salário curto, que engolem o orgulho e continuam indo da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, repetindo trajetos enquanto a vida parece parada.


Do alto daquele elevado, eu também vejo a pressa.

A pressa do motorista que corre como se alguém estivesse perseguindo ele. Talvez esteja. Talvez sejam as contas. Talvez o medo. Talvez a culpa. Talvez a sensação insuportável de não chegar nunca a lugar nenhum.


E no reflexo do espelho, às vezes, eu só vejo a mim.


Pequeno. Perdido. Tentando entender por que a cidade continua girando mesmo quando a gente sente que parou por dentro.


É estranho olhar Belém lá de cima. Porque parece que dali eu consigo enxergar além do concreto, além das luzes, além das esquinas que desaparecem depois da curva. Como se existisse uma cidade escondida dentro da outra. Uma cidade feita de dores que ninguém conta, de saudades que ninguém assume e de silêncios presos entre um semáforo e outro.


Mas o mais assustador não são as curvas que eu não consigo ver.


É perceber que, em algum momento, eu também virei só mais um carro passando lá embaixo.

Alguém olhando pela janela.

Embaçado.

Tentando chegar em casa sem saber exatamente onde fica.


Renata Rocha

 
 
 

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