CONFISSÕES EP 02
- Renata Rocha

- 5 de abr. de 2022
- 2 min de leitura
Preencher o tempo “vazio”. Deveria ser assim, somente isso. Mas a rotina tem, entre muitas funções, sufocar nossos dias, até que não mais o tenhamos. primeiro bombardeamos nossos intervalos de tempos com multitarefas, depois, dias e noites. As 24 horas nunca são suficientes, estamos tão cheios de tarefas e compromissos que tentamos sugar ao máximo cada instante para encaixarmos mais uma e outra demanda. Eu, sinceramente, me pergunto se eu estou vivendo essa vida ou se ela está correndo entre meus dedos, como o deslizar sobre essas teclas. A rotina tem dessas, ela vai, aos poucos nos tirando a sensibilidade, abrindo espaço para a neutralidade e incapacidade de sentir expressões, afeto, carinho …aos poucos vamos esquecendo a doce sensação de tocar os pés na areia da praia, de sentir o vento mais perto do rosto e até mesmo de aproveitar os pingos escorrendo pela face. Os dias voam depressa e, na ânsia de não querer perder tempo, atropelamos a nossa própria existência, deixamos de lado nosso presente para viver um futuro dos sonhos. O foda de tudo isso é que nunca enchergamos que precismos estar “inteiros” para desfrutar dele. Concentramos todas as nossas energias no agora e abrimos mão de instantes entre familiares - não que seja sempre a melhor coisa do mundo-, de brigas pela última porção do brigadeiro de colher, das discussões sobre quem vai lavar a louça do almoço. De instante em instante, perdemos a vida e é difícil falar isso, porque, apesar de distante, essa sensação é muito próxima. A rotina que tanto planejamos é a mesma que sufoca a alma, causa estresse e faz perder o sono dia sim e outro também. A rotina vai deletando nosso lado mais humano e instalando um sistema mais robótico, depois de algum tempo, poucas situações realmente nos afetam e incomodam, tudo parece tão normal. A rotina devora nossos sonhos, ela sozinha ocupa tempo demais, o mesmo tempo que não temos a perder. A rotina tira nossa capacidade de sorrir das piadas mais sem graça dos primos mais jovens. A rotina nos molda com ferro e fogo, no fim das contas, apenas as marcas ficam, quer seja na pele, quer seja na alma. É uma pena só nos darmos conta disso quando a rotina já levou o nosso tempo restante. Eu gostaria de poder dizer, ah, joga tudo para o alto e vai viver teus dias, mas eu não sou tão boa assim. A rotina já se instalou aqui e, mesmo eu tentando bastante, eu estou cansada demais para seguir por outra rota. Assim eu vou seguindo a minha própria rotina, hoje, sem grandes expectativas. Não mereço tanto. Talvez por isso, tanto esforço e renúncia. Quem sabe um dia, fora de uma rotina normal, eu possa entender o que ficou perdido por aqui.
Renata Rocha RR




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