ATÉ EU ME ACOSTUMAR...
- Renata Rocha

- 12 de jan. de 2023
- 2 min de leitura
Eu sei que você vai. eu sinto. eu já aceitei essa realidade. talvez no fundo seja o correto e, às vezes, fazer o que é certo vai além dos nossos próprios desejos pessoais. eu entendo. Eu só peço que você vá devagar. Sem tanta pressa de sair daqui. Leva uma muda de roupa hoje e um par de sapato amanhã. Deixa eu ver sua escova de dente ainda no armário do banheiro por essa noite. vai saindo aos poucos, assim eu posso me acostumar com a presença da tua ausência aqui nesse lugar que construímos juntos. Não um espaço físico, está dentro de nós -duas-. Dói, mais do que eu poderia imaginar. Evito te olhar nos olhos, eles refletem nossa decisão e, talvez eu queira voltar atrás, mas não podemos, né? Não é justo, com nenhum de nós aqui. A casa fica cada vez mais vazia. O silêncio parece que invadiu cada canto dos cômodos dessa imensa casa. As flores parecem sentir o que vivemos, as sinto mais murchas que de costume. Elas também precisam se “desacostumar” com essa nova ausência. Sabe o que é? Há dias que a saudade se torna mais gritante. Até o corredor já sentiu uma gota salgada tocar o chão. Os quartos também estão mais frios, a geladeira mais barulhenta que o normal. O fogão já não vive sujo e nem as panelas são tocadas. Tudo se resume a um lugar para passar a noite. O Kakashi e a Afrodite Maria sentem saudades. Também não se acostumaram. Às duas da manhã tem o remédio de um deles. Aos poucos a pata dele vai se recuperando. Ele já dorme sozinho na caminha dele. Está mais dengoso que de costume. Deve ser a saudade da presença da outra pessoa dele. Ninguém se acostumou ainda.Costumes, sabe como é, são difíceis de serem esquecidos. É como passar uma vida toda mastigando usando apenas um lado da boca e, de uma hora para outra, precisar mastigar do lado oposto. Costumes.
É, eu sei que você vai e, com você vai também metade de mim, do que um dia foi nós. Mas está tudo bem. A gente se acostuma novamente. Mas eu posso pedir uma última coisa antes de você ir de vez? Vai saindo devagar. Deixa eu ver mais uma vez um lado do seu par de meias na entrada da sala. Deixa eu ver mais uma vez teu brilho labial na pia do banheiro ou tua toalha no box do banheiro. Sai sem pressa. Deixa eu me acostumar com a presença da sua ausência. Deixa eu me acostumar a ser mais uma vez, só!
Renata Rocha RR




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