Aos poucos, eu fui embora de mim...
- Renata Rocha

- 25 de abr.
- 2 min de leitura
A gente vai criando versões de si como quem troca de roupa para caber em lugares que nunca foram feitos pra gente. Um ajuste aqui, outro ali, um silêncio que engole uma opinião, uma vontade que fica pra depois — sempre depois. E assim, quase sem perceber, a gente começa a viver uma vida que não é exatamente nossa, mas que parece mais fácil de ser aceita.
No começo, são concessões pequenas. Um hábito que some, um gosto que se adapta, uma rotina que deixa de ser prioridade. Aquele café no fim da tarde já não é mais sagrado. O livro fica fechado. O tempo sozinho vira egoísmo. E a gente vai cedendo, se moldando, tentando ser o que esperam, o que desejam, o que aprovam. Como se existir dependesse disso.
Até que um dia, no meio do barulho — ou no meio de um silêncio que pesa demais — alguma coisa estala.
E a pergunta vem crua, sem aviso, sem filtro:
o que eu estou fazendo da minha vida?
Não é uma dúvida leve. É um abismo.
Porque quando você tenta responder, percebe que não sabe. Não sabe o que gosta, o que quer, o que te move. As respostas que deveriam ser simples se tornam distantes, quase irreconhecíveis. Qual é a sua cor favorita? O que te dá prazer? O que te acalma? O que te faz sentir vivo?
Nada vem.
E então bate a constatação mais dura: em algum momento, você foi se deixando para trás. Não de uma vez, não de forma dramática — mas em pequenas despedidas silenciosas. Você parou de desenhar, de ler, de brincar, de sair, de respirar o mundo com curiosidade. Foi abrindo mão de si aos poucos, como quem não percebe que está indo embora de casa… até não saber mais o caminho de volta.
Só que tem uma coisa que ninguém conta: você não desapareceu.
Você ficou ali, guardado em algum lugar. Esperando.
Esperando o dia em que você se olhe de verdade e tenha coragem de admitir que se perdeu. Porque é exatamente nesse ponto — no desconforto, na dúvida, no vazio — que nasce a possibilidade de retorno.
E voltar pra si não é grandioso como nos filmes. Não é uma virada épica. É quase sempre simples, quase sempre silencioso.
É escolher, num dia qualquer, fazer de novo aquele café no fim da tarde.
É abrir um livro sem obrigação.
É lembrar de algo que você gostava… e tentar de novo.
É dizer um “não” que você vinha adiando há meses.
É se perguntar, com honestidade, o que ainda faz sentido — e aceitar quando a resposta for “não sei”.
Porque talvez o maior erro não seja se perder.
Talvez o maior erro seja acreditar que não dá mais pra se encontrar.
E dá.
Mas dessa vez, não para caber no mundo de alguém.
Dessa vez, para caber, inteira, dentro de si.
Renata Rocha




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