ADULTOS TRAUMATIZADOS
- Renata Rocha

- 3 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de ago. de 2021
Nos tornamos adultos “traumatizados”. Se eu posso dizer que sinto inveja de algo ou alguém, são das crianças ainda brincando nas calçadas em frente suas casas no fim de tarde. Sério, você já parou para observar como elas são “leves”? Como elas transparecem ser quem são e são quem querem ser naquele instante? Não há arrependimentos, não há pensamentos sombrios para lhes tirarem o sono –ok, um brinquedo quebrado pode lhes causar alguma insônia- mas a verdade é que em no máximo dois dias esse dilema não mais existirá em suas mentes, o dia seguinte é mais uma chance de brincar e como em uma folha em branco, as linhas estão prontas para serem rabiscadas e preenchidas com risadas, joelho ralado e muita água na casa do coleguinha.
Uma pena, ou não, crescemos e aos pouco nos desligamos da bola na rua, da casinha de lençol feita na bagunça da sala, as descobertas chegam, as meninas deixam de achar os garotos babacas ( ou não), os meninos não acham as garotas tão esquisitas. Os primeiros olhares surgem, o coração bate mais forte em algum momento. O primeiro beijo pode então surgir e aí a inocência vai se perdendo aos poucos, passamos a trilhar um caminho sem volta, era uma vez...
Acumulamos, ao longo das nossas vidas ganhos e perdas. Algumas dessas, inclusive, nunca mais retornam, exceto lembranças, boas ou ruins e é ai que eu quero chegar. “Suas experiências o tornaram mais forte”, eles dizem. A pergunta é, fazer mais forte para o quê? Por quê? É verdade que ao passar do tempo certos costumes são esquecidos, a vida é uma eterno iniciar e findar ciclos, afinal de contas, imagine quão tedioso seria esta estando sempre no mesmo lugar e espaço. O grande X da questão está justamente nesse “mudar” de direções que tomamos no decorrer dos nossos dias aqui, uma palavra não dita ou vozes demais ao mesmo tempo, “nãos” guardados, “sins” sufocados pelo medo, insegurança e mais medo. tememos o tal “fora”, fugimos do que parece intenso demais, abrimos mão sem pelo menos tentar, no fundo é mais fácil ficar apenas no sonho do que poderia ter sido. Criamos à nossa volta um campo invisível, “daqui só passa quem não pode me fazer sofrer”, pensamos. A ironia nisso é que nunca sabemos quem vai ou não nos magoar, é ai que tornamos essa uma passagem cada vez mais estreita, o que antes era porta larga, agora não se faz maior que uma fresta por onde alguém precisa se espremer para conseguir ver alguma coisa do outro lado da parede, mas às vezes o espaço é curto demais para tentar atravessa-lo, então desistimos no meio do caminho. Nossas desilusões passadas nos fazem temer ao novo, ao desconhecido, nos tornamos adultos medrosos, confiantes apenas no que é palpável ou explicado pela ciência. É passado demais para administrar, é medo de repetir as mesmas lágrimas. A possibilidade de sofrer mais uma vez assola a alma e enrijece o coração, um dia já tão destemido e com vontade de abraçar o mundo. Os dias passam correndo e quando menos esperamos, acordamos e não reconhecemos mais aquela criança sorridente que brincava descalço na rua e tomava anho de chuva em julho. O espelho não parece tão amigo, o amor parece pertencer apenas aos romances e novelas de ficção, justamente por não existirem na realidade em que se vive. É medo. As responsabilidades aparecem, a vida adulta chama, “é salário na conta agora”. A criança vai ficando cada vez mais perdida no caminho do passado, o adulto não sabe o que quer, as circunstancias foram lhe moldando assim, as barreiras fechadas liberaram espaço para o cômodo. “Está tudo bem” eu penso. E assim, vou me resguardando cada vez mais no meu próprio quarto, montado apenas com o que não pode mais me “machucar”, até que os dias se acabam e eu me torno apenas uma lembrança no tempo de alguém, ou não. Quem poderia saber.
Rocha Renata RR




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