top of page

 

   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

ADIAMENTO

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • 11 de abr.
  • 2 min de leitura

A gente tem uma mania silenciosa, quase imperceptível, de acreditar que o amanhã é um lugar garantido. Como se estivesse ali, reservado, esperando por nós — intacto, paciente, disponível.


“Amanhã eu falo.” “Amanhã eu faço.” “Amanhã eu tento de novo.”


E assim, o hoje vai sendo empurrado com delicadeza para um canto qualquer da vida.

A gente vive no automático. Acorda, responde, trabalha, resolve, volta. Repete. Como se o tempo fosse um contrato assinado, como se houvesse uma cláusula invisível garantindo que tudo aquilo que não coube hoje, caberá amanhã.


Mas… e se não couber?


É estranho perceber como adiamos sentimentos como quem adia tarefas simples. O “eu te amo” que fica preso na garganta. O pedido de desculpa que nunca encontra o momento certo. O abraço que a gente acredita que pode dar depois.

Depois.


Sempre depois.


Nos relacionamentos, a gente se acostuma com presenças como se fossem permanentes. Como se o outro fosse parte da mobília da casa — sempre ali, no mesmo lugar, disponível ao nosso tempo, ao nosso humor, à nossa vontade. E aí, sem perceber, a gente para de olhar de verdade. Para de ouvir com atenção. Para de sentir com urgência.


No trabalho, a gente se promete mudanças que nunca chegam. Sonhos que vão sendo adiados, engavetados, reescritos em listas que a gente nunca revisita. Porque hoje não dá. Porque hoje é corrido. Porque amanhã… amanhã vai dar.

Mas quem foi que disse que o amanhã existe?

Quem foi que nos convenceu de que há tempo suficiente?

A verdade — dura, crua, quase injusta — é que a gente vive como se tivesse controle sobre algo que nunca esteve nas nossas mãos.

O tempo não avisa. Não agenda. Não negocia.

Ele só passa.

E, enquanto isso, a vida vai acontecendo nos intervalos das nossas desculpas.

Nos “depois a gente vê”. Nos “não é o momento”. Nos “quando tudo estiver mais calmo”.

Mas nunca está.

Nunca esteve.

Porque a vida não espera a gente se organizar para acontecer. Ela simplesmente acontece — bagunçada, urgente, atravessada.

E talvez o maior engano seja esse: achar que viver é algo que pode ser deixado para depois.

Que sentir pode esperar. Que amar pode esperar. Que mudar pode esperar.

Não pode.

Não deveria.


Porque, no fim das contas, a gente não perde o amanhã.

A gente perde o hoje.

E, quando percebe, já foi.




RENATA ROCHA


 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Depois da Notícia

Alguns dias eu me permito desacelerar. Hoje foi um deles. Voltando para casa, no meio do trânsito, me fiz uma pergunta que deveria ser simples para alguém que vive uma redação todos os dias: afinal, o

 
 
 
Bússolas Não Vêm de Fábrica

É estranho imaginar que as pessoas sejam como bússolas. Que já cheguem prontas, apontando uma direção exata. Como se existisse um roteiro alinhado, um mapa capaz de revelar o que cada um pensa, sente

 
 
 
Casa Nem Sempre É Morada

É curioso como as nossas maiores certezas, às vezes, são justamente aquilo que mais nos faz duvidar. Tenho a impressão de que escrevi sobre isso recentemente. Sobre continuar mesmo durante a tempestad

 
 
 

Comentários


Faça parte da nossa lista de emails

© 2023 por Amante de Livros. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook ícone social
  • Twitter ícone social
  • Instagram ícone social
  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon
  • Branco Ícone Google+
bottom of page