A vida de quem acabou?
- Renata Rocha

- 7 de abr. de 2021
- 3 min de leitura
A vida não vai acabar porque você não pulou uma marchinha de carnaval por um ou dois anos. A vida acabou para muitos que tentaram-forçadamente- realizar seus próprios bailinhos e perderam suas vidas por isso. Ou para as pessoas do grupo de risco que tiveram contato com estes após um encontro inevitável na fila da farmácia, contraiu a doença e logo após veio a falecer. Para esses sim a vida acabou. Não haverá ano novo. Não haverá outros carnavais. Outro ano para sorrir ou lamentar. Essa chance foi tirada delas.
A vida não acabou porque você precisou realizar seu aniversário sozinho em casa ou com a presença de pessoas de maneira remota por um aplicativo de reuniões. A vida não vai acabar porque aqueles shows com os ingressos já garantidos precisaram ser remarcados para um dia ainda sem data ou hora marcado. A vida acabou para aquele musicista que, não dispondo de condições financeiras para colocar mais o pão na mesa para os filhos. Organizou uma festa para conseguir algum dinheiro com os ingressos e após três dias veio a ser intubado por complicações no pulmão e adivinha, a vida dele acabou. Esse deixa três filhos adolescentes e uma esposa sem nenhuma renda em casa. Valeu a pena? De quem é a culpa, sociedade ou Estado? Ambos?
A vida não acabou porque o jogo da final das libertadores foi cancelado em cima da hora. A vida acabou para a dona Maria que morava ao lado daquele estádio de futebol onde você, insistentemente, resolveu reunir com seus ”camaradas” da bola para realizar a “pelada” de toda sexta-feira. Ela se cuidava, tinha medo de contrair o vírus e então se isolou em casa, mas você o levou para tão perto dela que o resultado não poderia ser outro. O filho de dona Maria, como morava em outra cidade nunca conseguiu se despedir como deveria, desejava e merecia. Ele não viu uma última vez o sorriso de dona Maria, não segurou uma última vez suas mãos enrugadas pela idade já avançada, não sentiu uma última vez seu cheiro, seu cuidado. Ele apenas viu, de longe, o formato de um corpo embalado em um saco preto. Frio. Para ele sim, um pedaço da vida acabou e dona Maria deixou esse mundo mais cedo.
A sua vida não acabou porque você precisou ficar recluso em casa por dias, semanas, meses. Que bom que você tem uma casa para se abrigar e chamar de lar. Imagine quem não possui um teto para proteger-se do vírus, da chuva, do sol, da fome. A sua vida não acabou porque você não vê sua mãe há um ano por conta da pandemia e a distância geográfica. Agradeça por ainda tê-la saudável, mesmo que longe fisicamente. A sua vida não acabou porque você precisou adaptar seu trabalho para home Office, olhe ao redor e veja quantas pessoas ficaram desempregados durante esse período. Quantas ainda poderão perder sua fonte de renda. Junte isso às milhares que já estavam em busca de empregos antes do vírus explodir pelo mundo a fora, os cálculos eu deixo para você mesmo fazer e talvez quando você ver seu salário na conta no final do mês, você perceba quão privilegiado é.
A sua vida não acabou por que seu café da manhã se resume a bolacha de sal e café com leite. A vida de milhares já acabou enquanto procuravam comida nos latões de lixo na esquina da rua em que você mora e você nem se deu conta, pois estava ocupado reclamando da sua refeição.
A sua vida não acabou porque suas aulas estão no modo remoto. Agradeça por ter condições, um computador e internet para manter o semestre, milhares não possuem sequer energia ou agua encanada em casa. Enquanto você reclama por estar vivendo do seguro desemprego, centenas de pessoas enfrentam horas e horas de espera em filas de bancos para receber um “auxilio” de ajuda que, em muitos casos não chega a R$ 200, 00. O que não supre o básico na vida de centenas de famílias.
Diante de tantas perdas-materiais e vidas- se você não perdeu nenhum familiar, amigo ou conhecido próximo durante esse período, agradeça, pois para muitos, o carnaval, o futebol, o café no fim de tarde, o próximo show aglomerado de fato, acabou. A vida acabou.
Seja grato, resiliente e não perca a fé. Quer seja num ser, em você ou em qualquer que seja a sua crença. Só não vale não acreditar.
Renata Rocha




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