A Vida Acontece no Meio da Partida
- Renata Rocha

- 1 de jun.
- 2 min de leitura
As noites de Belém têm seus próprios humores.
Tem noite que nasce escura, como se o céu tivesse guardado os seus segredos em algum lugar entre as mangueiras e os rios. Tem noite que abre espaço para as estrelas, e a gente quase acredita que consegue contá-las uma a uma. E tem aquelas em que a lua aparece sem pedir licença, atravessando as nuvens como quem chega atrasada, mas faz questão de ser notada.
Talvez ela faça isso para lembrar que nem toda claridade precisa ser permanente para ser suficiente.
Belém ensina isso.
Ensina quando o calor aperta, quando a chuva cai sem aviso, quando o trânsito parece uma correnteza difícil de remar. Ensina quando o relógio corre mais rápido do que as pernas e quando a cabeça acumula pensamentos como folhas levadas pela maré.
Há dias em que a vida parece um mercado no fim da tarde: gente passando por todos os lados, vozes se cruzando, decisões sendo tomadas às pressas. Dias em que não sabemos se respiramos fundo, se seguimos em frente, se esperamos mais um pouco ou se simplesmente fingimos que sabemos exatamente para onde estamos indo.
Mas seguimos.
Seguimos entre uma ligação e outra, entre um café apressado e uma notícia urgente. Entre os corredores de um estúdio, as mesas ocupadas de um restaurante, os compromissos que se empilham e os pensamentos que insistem em correr mais rápido que nós.
E então chega a volta para casa.
A cidade muda de tom.
Os cães passeiam pelas calçadas. O vendedor da esquina ainda está ali, iluminado pela luz simples da sua barraca. Alguém fecha o comércio. Alguém espera um ônibus. Alguém olha para o céu.
E, de repente, tudo aquilo que parecia um caos durante o dia começa a encontrar lugar dentro da memória.
A noite tem esse poder.
Ela não apaga os acontecimentos. Apenas organiza os excessos. Como um rio que, depois da correnteza, volta a refletir a própria margem.
Talvez por isso a lua pareça conversar conosco às vezes.
Não porque tenha respostas, mas porque nos lembra que chegamos até aqui.
Mais um dia.
Mais uma batalha invisível vencida.
Mais um conjunto de dúvidas, tropeços, encontros, desencontros e pequenos milagres cotidianos que, no fim das contas, formam aquilo que chamamos de vida.
E a vida nunca foi sobre jogar bonito.
Nunca foi sobre acertar todos os passos, entender todas as regras ou saber exatamente qual movimento fazer.
A vida é para quem entra em campo mesmo cansado, mesmo confuso, mesmo sem entender direito a partida.
Porque, no final, pouco importa se você conhece todas as regras do jogo.
O que importa é que o apito já soou, a bola está rolando e, gostando ou não, você já está no meio da partida.
Então viva. Com medo, com coragem, com dúvidas ou com certezas. Mas viva. Porque quem espera aprender o jogo primeiro, quase sempre perde a chance de jogar.
Renata Rocha
E sim, esse texto poderia se chamar "Vida".




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