A Gente Não Vive Mais os Dias, Só Repete
- Renata Rocha

- 29 de mai.
- 2 min de leitura
Tem dias em que eu acordo e não sei exatamente se é segunda, quinta ou domingo.
E talvez isso seja o mais assustador de tudo.
Porque os dias perderam personalidade.
As segundas já não pesam mais como antes. As sextas não têm mais gosto de liberdade. E os sábados… os sábados parecem apenas uma pausa curta para continuar cansado depois.
A impressão que eu tenho é que a vida entrou num ciclo silencioso de repetição. Como se alguém tivesse apertado o botão do automático e esquecido de desligar. Acorda. Trabalha. Responde mensagens. Toma café correndo. Reclama do trânsito. Dá risada sem achar graça. Dorme. E repete tudo de novo no dia seguinte.
A gente virou especialista em sobreviver dias iguais.
E o pior é que nem percebeu exatamente quando deixou de viver.
Tu já notaste como as conversas ficaram vazias?
Como ninguém mais olha de verdade quando pergunta “tudo bem”?
As pessoas escutam esperando a vez de responder. Ninguém mais senta numa praça sem mexer no celular. Ninguém mais perde tempo olhando o céu. A gente desaprendeu o silêncio. Desaprendeu a presença.
Até as flores perderam impacto.
Antes, uma flor roubada pelo caminho carregava intenção. Hoje ela parece só mais uma coisa sem utilidade prática. Porque tudo precisa servir pra alguma coisa. Tudo precisa ser rápido. Tudo precisa acontecer agora. E nessa urgência absurda, os sentimentos foram ficando rasos.
Os livros foram ficando fechados.
Os encontros mais curtos.
Os sonhos menores.
A gente já não tem paciência pra explicar por que dois mais dois são quatro. E talvez isso aconteça porque, no fundo, estamos cansados demais pra discutir qualquer coisa. Então, se alguém insiste que dois mais dois são cinco… a gente apenas concorda. Não por acreditar. Mas porque faltou energia pra continuar sentindo.
É como se o mundo tivesse roubado da gente o entusiasmo pelas pequenas coisas. O tesão pela descoberta. A vontade de ir além do superficial.
E aí os dias passam rápido. Não porque o tempo acelerou. Mas porque estamos vivendo todos eles da mesma maneira.
Sem paixão.
Sem presença.
Sem memória.
No fim, a vida vai ficando parecida com aqueles corredores de supermercado abertos de madrugada: iluminados, silenciosos e vazios. Tudo funciona. Tudo continua em pé. Mas nada realmente acontece.
E talvez a maior tragédia da vida adulta seja essa:
não é o sofrimento.
É o costume.
Porque quando a gente se acostuma a existir sem sentir…
o coração continua batendo,
mas a vida já foi embora faz tempo.
Renata Rocha




Comentários