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   Renata Rocha

  Livros, Poesias,Velas e Vinhos

A Diferença Entre Durar e Viver

  • Foto do escritor: Renata Rocha
    Renata Rocha
  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

Há quem diga que as flores de plástico são melhores.


Melhores de cuidar. Melhores de presentear. Melhores de decorar.


Talvez sejam mesmo. Afinal, elas não exigem nada de nós. Não pedem água, não pedem luz, não pedem atenção. Basta comprá-las, acomodá-las em algum canto da casa e, de vez em quando, passar um pano úmido para devolver o brilho que nunca foi delas de verdade.


Um brilho que dura anos.


Mas é curioso como aquilo que dura tanto quase nunca nos toca.


Neste momento, enquanto observo um girassol sobre a mesa, penso nisso.


Quando chegou, era impossível ignorá-lo. O amarelo parecia recém-inventado. As pétalas se abriam como quem conhece a própria beleza e não precisa explicá-la. Seu centro guardava uma perfeição quase arrogante, como se carregasse um segredo que somente ele conhecesse.


E talvez conhecesse mesmo.


Os girassóis vivem voltados para a luz, mas, olhando bem, parece que são eles que a produzem.


Por alguns dias, ele iluminou o ambiente sem esforço. Como certas pessoas que entram em nossas vidas e, de repente, fazem tudo parecer mais bonito apenas por existirem.


Então o tempo começou seu trabalho silencioso.


Primeiro, quase imperceptível. Um tom diferente aqui, uma curva mais suave ali. Depois, as pétalas começaram a se desprender.


Uma a uma.


Lembrei das crianças trocando os dentes. Mas existe uma diferença cruel entre os girassóis e as crianças: para elas, o que cai dá lugar ao que nasce. Para o girassol, não.


O que parte, parte para sempre.


E foi então que me perguntei se não é justamente aí que mora o encanto.


Talvez amemos tanto as flores naturais porque elas nos lembram daquilo que somos. Porque carregam a coragem de existir sabendo que um dia deixarão de existir. Porque oferecem toda a sua beleza sem a garantia da permanência.


Elas florescem mesmo sabendo que irão murchar.


Nós amamos mesmo sabendo que haverá despedidas.


Talvez o girassol saiba disso desde o início. Talvez sua missão nunca tenha sido durar. Talvez tenha vindo apenas para iluminar alguns dias, ocupar um espaço vazio, arrancar alguns sorrisos e depois partir, como o sol que desaparece no horizonte ao fim da tarde.


E, ainda assim, quando chega a hora, dói.


Mesmo sabendo que aconteceria.


Mesmo vendo cada pétala cair.


Esperamos a última.


Sempre a última.


Como se a despedida pudesse ser adiada por mais alguns segundos.


As flores de plástico permanecem. Mas permanecem sem história. Aos poucos, acumulam poeira, perdem o falso brilho e se transformam apenas em objetos esquecidos na decoração.


Já os girassóis morrem.


Morrem de verdade.


Mas antes deixam algo em nós.


Uma lembrança.


Uma sensação.


Uma luz.


E talvez seja essa a diferença entre aquilo que apenas dura e aquilo que realmente vive.


O plástico resiste ao tempo.


O girassol o atravessa.


E, ao partir, deixa vida em quem ficou.



Renata Rocha

 
 
 

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