CASA
- Renata Rocha

- 8 de jul. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de jul. de 2021
Tudo parece tão diferente e ao mesmo tempo tão igual. É como se eu tivesse estado aqui em outra vida, mas que se confunde com o ontem. As rodas giram para lá e para cá. Existem mais condutores do que pessoas para serem conduzidas. Alguns rostos eu cismo em ainda reconhecer, outros parecem buscar no baú das memorias algo familiar com minha maneira de olhar. Algumas ruas permanecem do mesmo jeito, muitas outras surgiram. Os verdes das árvores me lembram dos tempos de frutas vermelhas. O vento trás o cheiro do nosso tempo de colégio e recreio na calçada. Pernas cruzadas. Até os grandes barrancos ao redor da cidade me faz lembrar as tardes chuvosas em que, inocentemente, acreditávamos poder escalar. Percebo, quem um pouco antes tivera, permanece assim. Quem pouco ou nada tinha, hoje, nada mudou. É um constante dia repetido de hoje. Um ontem no hoje. Dorme-se e acorda e tudo está igual. Os prédios já envelhecidos com o tempo me causam certa nostalgia, boas e más lembranças tenho daqui. Nada mudou, ao passo que nada permanece igual. Confesso que as lembranças brigam entre si, buscando em cada particularidade sua, uma maneira de se tornarem únicas. A casa em que por tanto tempo foi meu lar, hoje me parece desconhecida. Abri espaço para novos personagens entrar. Sou uma completa estranha dentro da mesma casa onde um dia sai acreditando não mais retornar. Se castigo ou sina, eu não sei. Sei que novos olhos brilham aqui. Ouço vozes no meio da noite, parece tão frágil e inocente. O sussurro vem até mim de maneira clara e nada tímido. Percebo as diferenças entre ontem e hoje. Não somos mais os mesmos. Há pelos onde antes não havia. Há também certa autoridade ao se pronunciar outras palavras. Isso deve ser o que chamamos de vida adulta. As curvas dos meus tomaram formas. Somos adultos estranhos. Trilhamos caminhos completamente diferentes. Muitos foram e tão poucos fizeram falta de verdade. Hoje me pego a pensar sobre o que fizemos com o que deixaram de nós em nós. É tão singular, nossa maneira de pensar, mais ainda como chegamos até aqui. Vejo os novos tão cheios de vida, por outro lado, tão incertos do amanhã. Isso acaba comigo. Eu me culpo. Apresso o tempo. Tento driblar as barreiras para tentar ganhar mais tempo, perder menos vida. E, embora eu saiba que isso é prejudicial, eu permaneço nesse trilho. Até que eu perceber que não sou perfeita, muito menos completa. Estou em constante formação, mas a pressa me cega os olhos. Tenho medo da frustração do amanhã. A instabilidade me tira o sono. Me faz “quebrar” a cabeça e virar madrugadas buscando e escrevendo as próximas linhas da nossa própria historia. Os devaneios. As incertezas permanecem aqui. Alguns dias elas são mais persistentes, nessas horas eu me entrego. Choro um pouco mais. Mas em seguida retomo o caminho, mesmo com tantos medos e incertezas pela frente.
Renata Rocha RR




Comentários