ECO (A)
- Renata Rocha

- 5 de abr.
- 2 min de leitura
Aos poucos, os espaços começaram a se expandir. O que antes cabia em mim, hoje parece escapar ao alcance da vista. Os ruídos diminuíram, mas o silêncio… o silêncio agora ecoa pela casa inteira.
O corredor ficou mais longo. As paredes, mais distantes. Até a cafeteira — que antes era pequena demais para nós — hoje parece exagerada, como se dez xícaras fossem café demais para alguém só. Aliás, deixei de usá-la por alguns dias. Não sei se foi punição ou só cansaço. Talvez os dois. Fato é que o café, a cozinha, tudo que vive ali ainda não reconhece essa versão de mim que insiste em nascer.
É estranho olhar para o teto. Ele parece mais opaco, meio amarelado, como se também estivesse cansado. Estranho lidar com os pensamentos, com os cantos vazios da sala, com os quadros coloridos que agora encaram uma parede sem história. Da cozinha, ainda vejo a escrivaninha de madeira — e um pedaço do pé, gasto pelo tempo ( e pelos dentes que nasciam). Resquícios de um amor que um dia chamei de ohana.
Sim… é estranho.
Planejar, acreditar, renunciar… e, no fim, ter que recalcular a rota.
Houve um tempo em que escolhi não pensar nisso. Fingir que não existia, que não doía, que não precisava ser entendido. Mas existe. Existe uma parte em mim que ainda precisa viver, crescer, ocupar espaço — para que eu me torne quem preciso ser. E aceitar isso é difícil. Doloroso. Exigente demais. Mas nada pesa tanto quanto esperar por um milagre que nunca vem.
Eu sempre digo a mim mesma que uma das minhas poucas qualidades é saber o que precisa ser feito — e fazer. Na teoria, é simples. Você se olha no espelho, ajeita o batom que ultrapassou a linha dos lábios e repete, quantas vezes for preciso: “eu preciso fazer”. E, por um segundo, parece fácil.
Mas não é.
Nem de longe.
Ainda assim, aos poucos, no treino silencioso dos dias, as coisas começam a fluir. Mesmo que devagar. Mesmo que doendo.
Tem dias em que acho que sou dura demais comigo. Que deveria permitir mais leveza, mais pausa. Nem sempre a versão prática é a mais humana. Nem sempre decidir é um ato de força — às vezes, é só necessidade.
E é difícil ser quem decide.
Ser quem levanta a mão no meio da multidão, mesmo sem ter certeza da resposta. Porque, no fim, não é sobre acertar — é sobre estar ali. Ocupando o lugar que, naquele momento, é o único possível.
E, às vezes, o único necessário.
Às vezes, é preciso deixar ir.
Esvaziar gavetas. Limpar armários. Faxinar o teto. Abrir espaço no guarda-roupa para o que ainda nem chegou. (E não… não estou falando de roupas.)
Porque, mesmo em meio a esse caos que reverbera pelas paredes e grita no silêncio do corredor, há algo que permanece:
a vida.
E ela se manifesta nas pequenas coisas. Numa xícara de café esquecida. Numa cerveja gelada ao fim do dia. Em recomeços discretos, quase imperceptíveis.
Mesmo que o primeiro gole desça amargo.
Porque, no fim das contas, todo fim carrega um começo.
E todo recomeço… também é uma forma de despedida.




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